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Metal Mecânica

29/09/2017 - IPESI INFORMA

Com IoT, Minas busca reinventar a atividade de mineração



Planejado para funcionar até o fim deste ano no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BHTec), o Centro IoT For Mining pretende desenvolver projetos de internet das coisas para a mineração. Mas possui também um objetivo mais estratégico: embora Minas Gerais seja o estado mais importante do país na área de mineração, vem perdendo cada vez mais a competitividade, devido à queda do teor de ferro no minério e os altos custos da operação. Há quem já tema que isso possa fazer com que o setor, ali, seja até mesmo extinto daqui a algum tempo, caso continue dependente apenas da extração.

"Minas Gerais é justamente reconhecido como o estado da mineração, mas queremos que não seja mais apenas a mineração puramente extrativista", afirma o superintendente de Desenvolvimento Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Marcos Mandacaru. "Esse é um projeto para colocar Minas na agenda de pesquisa e desenvolvimento mundial. Vamos fazer do BHTec um grande polo de tecnologia para mineração", garante, acrescentando que condições para tanto não faltam: o estado concentra mão de obra qualificada e é sede de importantes empresas de tecnologia, o que deixa seu ambiente propício para um centro desse tipo.

A seguir, trechos da entrevista.

METAL MECÂNICA - Belo Horizonte poderá contar, antes do final deste ano, com um centro empresarial e de pesquisas voltado para o segmento da mineração: o Centro IoT For Mining, cujo trabalho terá como base a internet das coisas. Na prática, quais serão os principais objetivos desse centro?
MARCOS MANDACARU - Na verdade, o Centro IoT For Mining é parte do Plano Nacional de Internet das Coisas, gerido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação e pelo BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Faz parte, portanto, de um projeto maior, que é o de montar no Brasil uma rede de instituições capaz de dar ao país expertise nessa área.

Especificamente, trata-se de um projeto da Fiemg, a Federação das Indústrias de Minas Gerais, em parceria com outras entidades, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais, a Fapemig, e o Parque Tecnológico de Belo Horizonte, o BHTec, dentro do qual ele irá funcionar. O objetivo principal, como o nome já diz, é o de desenvolver projetos de internet das coisas para a mineração.

Mas há também um objetivo mais estratégico e que tem a ver diretamente com Minas Gerais. Embora o estado seja o mais importante do país na área de mineração - a atividade está, aliás, até no seu próprio nome - vem perdendo cada vez mais a competitividade no mercado. A maioria das minas brasileiras está em Minas Gerais, o estado produz mais de 50% dos metais exportados pelo Brasil, mas a queda do teor de ferro no minério e os altos custos da operação podem fazer com que o setor seja até mesmo extinto daqui a algum tempo, caso continue dependente apenas da extração. O que seria uma verdadeira tragédia para Minas Gerais, já que a mineração é ainda uma das principais fontes de renda do estado.

METAL MECÂNICA - A ideia então é de agregar valor ao segmento.
MANDACARU - Sim. No fundo, a proposta, que está em desenvolvimento desde o ano passado, surgiu da necessidade de uma reinvenção da atividade de mineração em Minas Gerais. Pois, quando esse recurso natural estiver exaurido, o que vai ficar? Só um retrato na parede? Essa atividade tem que permanecer e, por isso, queremos principalmente nos tornar capazes de oferecer soluções em mineração, estejam onde estiverem as minas. Queremos que a "inteligência" do setor no Brasil fique em Minas Gerais. E temos todas as condições para isso, já que o estado concentra mão de obra qualificada e é sede de importantes empresas de tecnologia, o que deixa o seu ambiente propício para um centro como esse.

Por exemplo, o Google tem em Belo Horizonte um dos seus principais centros de pesquisa e desenvolvimento da América Latina, com mais de 200 engenheiros. Em São Paulo, só fica a sua sede comercial. O único centro de P&D da Embraer fora de São Paulo também fica em Belo Horizonte. Temos também importantes polos de pesquisa tecnológica no interior, geralmente junto a universidades: Viçosa, na área do agronegócio, tecnologia de informação e informática aplicada em Uberlândia e em Juiz de Fora... Santa Rita do Sapucaí, apesar de ter apenas 40 mil habitantes, conta com 150 empresas high-tech gravitando em torno do Instituto Nacional de Telecomunicações, o Inatel. E por aí vai. Isso, sem falar que a UFMG, a Universidade Federal de Minas Gerais, é a universidade líder em número de patentes no Brasil.

Queremos que Minas Gerais esteja para a mineração como São Paulo está para as finanças e o Rio de Janeiro para o petróleo - um centro inquestionável de expertise. Isso, é óbvio, também exercerá influência positiva na indústria mais convencional, segmento no qual o estado já é também bastante forte. Belo Horizonte é hoje um centro de serviços totalmente cercado por indústrias, por uma região que é o quinto maior parque industrial da América Latina. Os municípios de Betim e Contagem sozinhos concentram um PIB industrial apenas menor do que o do ABC paulista, destacando-se na área metalmecânica, na automotiva, na fabricação de locomotivas.

METAL MECÂNICA - Em que estágio encontra-se o processo de implantação do Centro IoT For Mining? Como ele será mantido no primeiro momento?
MANDACARU - O centro será mantido inicialmente pela própria Fiemg. Já foi reservado um espaço para ele no BHTec. Trata-se de um escritório cedido pela empresa mineira de engenharia eletrônica Seva, a primeira empresa a fechar parceria com o centro, e que servirá como uma espécie de "hub" para conectar as demandas das mineradoras às empresas de tecnologia. Mas a expectativa é de que novos espaços sejam ocupados no parque por centros de desenvolvimento de tecnologia globais.

A ideia é de que o centro funcione da seguinte forma: as mineradoras serão convidadas a expor suas demandas e "gaps" em seus processos produtivos. Em seguida, elas serão encaminhadas para as empresas de tecnologia globais que, em parceria com empresas de tecnologia locais, desenvolverão as respectivas soluções. Tudo deve avançar muito rápido. Além de empresas de tecnologia já instaladas no estado, gigantes como IBM, Cisco e Samsung já mostraram interesse no projeto. Vale, Anglo American, AngloGold, CSN, Votorantim, Gerdau e Ferrous, alguns dos maiores "players" dos setores de mineração e metalurgia, também já são apoiadores.

METAL MECÂNICA - Já é possível imaginar que tipo de projeto será desenvolvido pelas empresas participantes do centro?
MANDACARU - Bem, a internet das coisas, que é também chamada de Indústria 4.0, tem o objetivo de fazer objetos se conectarem e comunicarem entre eles. Os projetos certamente seguirão nesta direção. Na mineração, as aplicações da IoT podem se multiplicar ao infinito. Entre as soluções esperadas estão aquelas que promovem a automatização e a digitalização da mina, de modo a proporcionar a melhoria de processos, a prevenção de acidentes e a antecipação de tomadas de decisões.

A Seva Engenharia, por exemplo, já desenvolveu soluções que geraram redução de mais de R$ 9 milhões nos custos de produção de uma mina, com o uso de tecnologias de sensoriamento e RFID para o controle de caminhões, dos acessos e do combustível. Também desenvolveu sensores capazes de medir o peso dos veículos que fazem o transporte de materiais nas minas, a partir da medição da deformidade dos veículos. Essa informação acaba sendo estratégica para a mineradora, que pode assim monitorar o processo em tempo real. A computação cognitiva pode igualmente ser utilizada. Ela diz respeito à capacidade de o computador entender os dados e dar respostas a uma determinada demanda sem nenhuma perda de tempo.

A IoT também pode tornar a mineração uma atividade ainda mais sustentável. Muita gente, depois da Tragédia de Mariana, passou a achar que a mineração não passa de uma atividade predatória. Não é verdade na maioria dos casos. É uma atividade, além de imprescindível para o conjunto da sociedade, até mais sustentável que o agronegócio, por exemplo, já que as mineradoras extraem o minério e recuperam as áreas como as recebeu - quando não as devolvem ainda melhores, como é bastante visível em países como o Canadá e a Austrália. Já o agronegócio é obrigado - ou prefere - muitas vezes simplesmente desmatar, para poder tocar as suas plantações.  (texto:Alberto Mawakdiye/foto: Divulgação)

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