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Metal Mecânica

27/10/2017 - IPESI INFORMA

"A digitalização industrial é muito mais do que a internet das coisas"



Uma das empresas mais avançadas na chamada Indústria 4.0, a alemã Trumpf inaugurou no último mês de setembro, em Chicago, nos Estados Unidos, uma "fábrica de demonstração" totalmente projetada como uma planta de produção flexível e conectada digitalmente - ou seja, trata-se, na verdade, de uma Indústria 4.0 em sua forma mais pura.

Na "fábrica", que ocupa uma área de 5,5 mil m2, toda a cadeia de processo de chapa metálica - desde a encomenda de uma peça até sua concepção, produção e entrega - está interligada de forma inteligente, de acordo com os princípios tecnológicos e organizacionais mais inovadores.

Ao contrário dos tradicionais showrooms do Grupo Trumpf, onde a ênfase está em máquinas individuais, a planta de Chicago está focada no processo industrial completo, com informações sobre o material e o fluxo da produção.

"A ideia é demonstrar como acontece a interação de pessoas, máquinas, armazenamento, automação, software e soluções em uma Indústria 4.0", explica João Carlos Visetti (foto), presidente da unidade brasileira da Trumpf, segundo quem o Brasil não deverá demorar a participar ativamente desta nova área da tecnologia.

Visetti sabe do que está falando. Engenheiro elétrico com MBA em Administração de Empresas e Marketing, ele atuou em diferentes áreas da indústria, como projeto de sistemas, instalação industrial, datacenter, equipamentos elétricos, equipamentos para infraestrutura de TI e máquinas-ferramenta. É diretor da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha e integra o cluster de Indústria 4.0 da Associação de Engenheiros Brasil-Alemanha.

A seguir, trechos da entrevista.

Metal Mecânica - A Trumpf parece estar bastante engajada no desenvolvimento da Indústria 4.0, tendo inclusive inaugurado uma fábrica de demonstração em Chicago, nos Estados Unidos, no mês de setembro.  Esse engajamento retrata o panorama que se vê nas empresas em geral na Alemanha?

João Carlos Visetti - A Trumpf sempre se destacou por seu DNA inovador e posição de vanguarda - portanto, ela desponta nestes quesitos. Mas um número razoável de empresas alemãs também está envolvido na transformação digital. De qualquer forma, a Trumpf é uma das principais delas. Isso se reflete até nas mudanças ocorridas no board do grupo, que conta hoje com um Chief Technology Officer e um Chief Digital Officer. Isso demonstra que as soluções oferecidas para os clientes aumentarem a sua produtividade e competitividade com a digitalização da linha de produção representa, para nós, algo bem importante.

Estamos diante de um mercado cada vez mais preocupado com a produção on demand, de lotes de um e coisas do tipo. Se não houver a digitalização e a redução dos tempos nos processos de pré e pós-produção, isso se torna inviável. E se na Alemanha várias empresas, de diversos segmentos, estão indo por esse caminho, o Brasil também já está presente. Um grupo de trabalho bilateral Brasil-Alemanha vem sendo organizado para debater o desenvolvimento de Indústria 4.0 no país, com a participação de indústrias de vários ramos e entidades empresariais e educacionais.

Metal Mecânica - Há alguma diferença entre o que alemães chamam de Indústria 4.0 e o que os norte-americanos chamam de IIoT, a Internet Industrial da Coisas? 

Visetti - O IIoT é um pedaço da Indústria 4.0. A digitalização industrial é muito mais do que a internet das coisas. Mas não existe Indústria 4.0 sem a internet das coisas. A internet das coisas é a forma como se extrai dados de tudo que está se movimentando em volta de um processo - máquinas, equipamentos, caminhões - ou de tudo que é necessário para que um determinado processo seja concluído, acompanhe esses dados e otimize-os.

A Trumpf já pratica  IIoT. Nossos lasers hoje são todos conectados, monitorando online mais de 500 variáveis. No final de 2016, a Trumpf ganhou o prêmio de melhor fornecedor da Daimler mundial na categoria "parceria", por um trabalho em conjunto no qual nós pegamos a IloT do laser, com os nossos algoritmos de acompanhamento e análises, e interligamos todos os lasers das fábricas da Mercedes ao nosso centro de manutenção. Esses lasers são monitorados ao redor do mundo em tempo real, de modo a reduzir a quantidade de paradas inesperadas e aumentar a disponibilidade do equipamento. Dessa forma, aumentamos o uptime de 92 % para 97%. 

Metal Mecânica - O que a Trumpf dispõe hoje em termos de produtos voltados para a Indústria 4.0?

Visetti - As nossas soluções incluem os equipamentos, os softwares e os serviços de integração. Justamente o que está instalado na fábrica de Chicago. É um sistema que funciona ao vivo, digamos assim, e que pode ser, inclusive, visto e desafiado. As pessoas podem chegar com seus desenhos, e acompanhar a posterior produção. Para isso, a Trumpf fez algumas aquisições estratégicas, como a Axoom, colocando todas sob uma bandeira chamada TruConnect, assim como todas as nossas soluções voltadas para a Indústria 4.0.

Metal Mecânica - Para implantar essas soluções, é necessário se descartar previamente de tudo que se tem de maquinário e equipamentos de apoio na empresa? Qual é a infraestrutura necessária para uma empresa se transformar em uma Indústria 4.0?

Visetti - Não é algo que se faça da noite para o dia. É todo um processo. O primeiro aspecto a se prestar atenção é se o que se está levando para dentro da empresa está alinhado com o conceito de Indústria 4.0. Um segundo aspecto é que existem vários hardwares para melhorar o acompanhamento do processo dentro dos equipamentos. As máquinas Ttumpf já têm o Central Link Interface há muito tempo. Obviamente, as máquinas de cinco anos atrás não têm toda a sensorização de uma máquina atual, mas mesmo assim elas têm condição de fornecer o mínimo necessário no que diz respeito ao apoio aos processos produtivos.

Também é necessário atenção para com a educação, o treinamento e a cultura da empresa. Ter os softwares de apoio corretos, uma programação, pessoas engajadas e preparadas. Um processo de transformação desse nível tem que estar presente no board da empresa. È uma tomada de decisão que deve vir cima - ou não acontece.

Metal Mecânica - Como veem o futuro do Brasil no mercado 4.0?

Visetti - A indústria brasileira passou por anos amargos, sofreu, mas está se reinventando. Nunca se investiu tanto na indústria automobilística brasileira como durante essa crise. Mas o Brasil ainda é um país fechado, o que leva a indústria brasileira a criar soluções "jabuticaba", que só servem para o Brasil. Nem a China é assim. A indústria tem que se internacionalizar, senão, não sai da crise.

Sabemos que também há pouca informação no Brasil sobre a Indústria 4.0. E que, para nós aumentarmos esse conhecimento, serão necessários não só seminários, mas muita conversa, muita explicação, mostrar cases, benefícios, vantagens etc. Nisso a Trumpf também sairá na frente. Temos uma excelente equipe técnica. Afinal, para qualquer nova onda de investimentos, é preciso contar com pessoas treinadas.

Metal Mecânica - Parece inevitável que as fábricas conectadas e robotizadas e com poucos funcionários seja o que veremos num futuro não muito distante. Essas fábricas terão altíssima produtividade. Os pessimistas falam em desemprego em massa. Na hipótese desta visão vingar, quem estaria apto a comprar essa enorme quantidade de produtos?

Visetti - O debate sobre a Indústria 4.0 aponta vários cenários para a questão do emprego. Há quem sustente que vai haver o desemprego total, com fábricas mantidas pela própria cadeia produtiva, num modelo em que ela se autorretroalimenta. Eu não acredito nisso. Eu acredito que, além de estarem produzindo equipamentos, as pessoas terão que produzir soluções. Quando você fala em automação, você está dizendo em pegar determinado processo e solucionar para que ele seja feito de forma automatizada. Seja isso um processo fabril, de escritório, logística etc. Em cada país e cada lugar, isso é diferente.

Então, nós vamos precisar de uma mão de obra diferente, capacitada, para poder criar, montar, operar e manter essas soluções de uma forma que é diferente da de hoje. O número de empregos diretos na indústria vai ser menor? Vai. Mas, para que essa indústria exista e ande também vai precisar de outras coisas, que não são a produção. As pessoas vão continuar existindo atrás dos robôs, atuando em atividades onde o conhecimento é fundamental. Temos hoje uma geração que não está preparada para os processos de produção existentes atualmente, imagine no futuro. Essa questão do treinamento, reciclagem de mão de obra, melhor formação, é fundamental, e passa pelo modelo de profissionais que queremos incentivar. (Alberto Mawakdiye)

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