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17/11/2017 - IPESI INFORMA

Internet tende a permitir ao cidadão relação mais aberta e participativa com o Estado



Professora do Curso de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), Ana Carla Bliacheriene é hoje uma das principais especialistas em Cidades Inteligentes (Smart Cities), título que agrega os vertiginosos avanços tecnológicos que influenciam o dia a dia das cidades, no Brasil e em todo o mundo, e o cotidiano de nossas vidas.

A professora, neste momento, coordena um prestigioso grupo de pesquisas sobre o tema, em âmbito nacional, além de preparar a publicação de dois títulos sobre o assunto.

No último dia 6 de novembro foi realizado em São Paulo o primeiro encontro de uma série que se estenderá por todo o ano de 2018, em mesas de debates gratuitas e abertas a todos os interessados para discutir o fenômeno recente das cidades inteligentes e seus impactos nas grandes políticas públicas universais - como Saúde, Educação, Saneamento, Infraestrutura Urbana e Segurança Pública.

Serão, ao todo, 11 encontros, com a participação de representantes da comunidade acadêmica, de instâncias governamentais e da iniciativa privada. "O viés será totalmente interdisciplinar e intersetorial", explica a professora.

No encontro inaugural, realizado no auditório da Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista, o tema debatido foi "Smart Cities e Políticas de Segurança Pública", com a presença de Alessandro Vieira, ex-delegado geral da Polícia Civil do estado de Sergipe e especialista em gestão estratégica de Segurança Pública pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Completaram a mesa a própria Ana Carla e Luciano Araújo, professor de graduação e pós-graduação em Sistemas de Informação na EACH-USP. O evento foi também transmitido pelo YouTube.

Como não poderia deixar de acontecer, as cidades inteligentes também têm sido cada vez mais objeto de estudos e pesquisas de entidades independentes. A Urban Systems Brasil, por exemplo, é uma empresa de Business Intelligence especializada em pesquisa comportamental e análise de dados estatísticos em mapas digitais, para dimensionamento de mercados e levantamento de tendências em mercados e cidades.

Um dos produtos dessa análise de dados é o Ranking Connected Smart Cities, um levantamento anual sobre cidades inteligentes e conectadas do país e que já está em sua terceira edição. Ele analisa 11 setores de mais de 700 municípios, a partir de 70 indicadores. Os 11 setores são mobilidade, urbanismo, tecnologia e inovação, empreendedorismo, governança, educação, energia, meio ambiente, saúde, segurança e economia. Neste ranking, a cidade de São Paulo foi eleita como a cidade mais inteligente do Brasil.

A capital paulista ficou em primeiro lugar no ranking geral, seguida por Curitiba, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Vitória. A região Sudeste concentra as cidades mais inteligentes e conectadas, estando seis municípios entre os dez mais bem colocados. A região Norte é a única sem representante entre as dez melhores - Palmas, capital do Tocantins, ocupa o 15° lugar. No Sul, Curitiba é a que detém a melhor posição. Recife lidera na região Nordeste. Já Brasília aparece à frente no Centro-Oeste.

São Paulo lidera essencialmente por se destacar em praticamente todos os 11 setores analisados. É a cidade com mais disponibilidade de modais de transporte coletivo de massa e conta com novas leis de Plano Diretor e Uso e Ocupação do Solo. Ainda é nascedouro de muitas pequenas empresas, além de destino de verbas de pesquisas. Por fim, é sede de empresas de tecnologia de todos os portes, atraindo investimentos e negócios.

De qualquer modo, é importante ressaltar que as cidades brasileiras ainda estão muito longe de suas "concorrentes" pelo mundo. De acordo com a pesquisa, o espaço que as cidades brasileiras têm para avançar em relação a elas mesmas é de 50%. Em relação ao mundo, essa diferença ainda é muito maior.

Segundo estudos internacionais, Tóquio, Londres e Nova York lideram o ranking das cidades mais inteligentes do planeta, somando as pontuações mais altas em um conjunto das dez dimensões: economia, meio-ambiente, abertura internacional, coesão social, administração pública, planejamento urbano, tecnologia, mobilidade e transporte, capital humano e governança. Dentre as dez cidades mais inteligentes do mundo, ainda não há nenhuma da América Latina.

A seguir, trechos da entrevista.

Cidades digitais vs. cidades analógicas

No Brasil, as cidades ainda são basicamente analógicas, embora estejam caminhando rapidamente para o digital. É um resultado inevitável dos avanços tecnológicos. O processo de digitalização das cidades, na verdade, iniciou-se na década de 1980, quando os arquivos tradicionais começaram a ser substituídos pelos bancos de dados. Desde então, a informática tem avançado sobre as mais diferentes áreas da gestão urbana - transportes, trânsito, energia, saneamento etc. - modificando o próprio caráter da administração pública. Caminhamos para um governo baseado na eletrônica, com todos os serviços conectados à internet, e controlados por ela. 


Uma nova orientação
É preciso notar que a digitalização é apenas o começo de um processo de profunda modificação dos negócios públicos. É o seu "esqueleto", digamos assim. A internet também já está permitindo ao cidadão manter outro tipo de relação com o Estado. Não é apenas a quantidade crescente de autosserviços disponibilizados. A participação popular nas definições das políticas públicas tende, também, a aumentar com o potencial maior uso da internet para a realização de consultas e audiências públicas, plebiscitos e coisas assim. A tendência é de que a digitalização permita que passemos de um modelo representativo de gestão para um modelo participativo.

Inovações tecnológicas
Como todas as áreas da sociedade, o poder público também ficou sujeito aos efeitos das inovações tecnológicas, que hoje surgem meio que o tempo todo. E há cada vez mais uma espécie de espraiamento desses efeitos. A digitalização da administração pública começou lá atrás com o pessoal de TI. Mas depois chegou o pessoal de engenharia, de infraestrutura, tráfego, solo urbano, energia, construções sustentáveis, cada qual implantando as suas inovações. Agora é vez do pessoal de ciências políticas e sociais, que deve contribuir para que a gestão pública se horizontalize cada vez mais, deixando de ser tão vertical como hoje. E que também haja mais prestação de contas.

Viver bem
As cidades inteligentes são muito mais do que cidades conectadas. Uma cidade inteligente é também uma cidade mais humana, mais saudável, onde os cidadãos tenham uma boa relação com o Estado, uma relação participativa, com poder de decisão. Este conceito de cidade inteligente - enquanto sinônimo de lugar onde se vive bem - é o que começa a predominar globalmente. Não é uma realidade por enquanto, pelo menos na maior parte do mundo ainda não é. Mas, graças ao avanço da digitalização, nada impede que venha a ser. (texto:Alberto Mawakdiye/foto: Ernani Coimbra/Divulgação)

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