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Metal Mecânica

26/01/2018 - IPESI INFORMA

"É preciso um choque de gestão"



Para o engenheiro de materiais Bruno Diesel Gellert, coordenador do Grupo de Trabalho de Manufatura Avançada da Abimaq (GTMav) e do comitê de startups industriais ABStartups, os quase 20% de ociosidade verificados hoje na indústria brasileira poderiam ser fortemente reduzidos com a adoção de práticas bastante comuns em países desenvolvidos, como a produção 24 horas e a adoção permanente de novos turnos, a diversificação da clientela e o investimento em um maquinário mais automatizado e flexível.

"Claro que esse nível de ociosidade também tem a ver com a queda da demanda provocada pela atual crise econômica", diz Gellert. "Mas mesmo antes da crise nossas fábricas já apresentavam a necessidade de um uso mais intensivo e planejado de suas máquinas. É obviamente, também, um problema de gestão".

Gellert sabe do que está falando: é grande a sua familiaridade com esse "gap" bem brasileiro. Ele é também fundador e CEO da Peerdustry, uma plataforma digital da área de usinagem que aproxima os prestadores de serviços de usinagem com horas-máquina disponíveis de eventuais clientes que precisam produzir determinadas peças, mas que não possuem capacidade produtiva, maquinário adequado, ou especialistas necessários para a realização do serviço.

Atualmente, a empresa tem no seu portfólio mais de 700 fornecedores e clientes ativos apenas na Grande São Paulo, o que mostra que a capacidade industrial brasileira está de fato subutilizada, por falta de planejamento e um trabalho mais elaborado de prospecção do mercado por parte das empresas.

A seguir, trechos da entrevista.

METAL MECÂNICA - Em artigo recente, o sr. afirmou que a enorme capacidade ociosa que se verifica hoje na indústria brasileira não é apenas culpa da redução da demanda, provocada pela recessão. Há outros fatores envolvidos?
BRUNO GELLERT - Sem dúvida. Nossa indústria lida há tempos com uma utilização da capacidade de produção que está bem abaixo da verificada em outros países. Claro que parte do problema se agravou com a queda da demanda por conta da atual crise econômica. Mas está longe de ser este o único motivo.

Afinal, mesmo que os atuais índices de ociosidade estejam acima da média registrada nos últimos dois anos, muito antes dessa turbulência na economia nossas fábricas já apresentavam a necessidade de um uso mais intensivo e planejado de suas máquinas. Esse "choque de gestão", digamos assim, poderia ter ajudado muitas empresas a passarem com mais tranquilidade pelo atual momento de recessão, além de prepará-las para quando a economia reaquecer.

METAL MECÂNICA - Como está hoje o nível de ociosidade?
GELLERT - Alto. Bem alto mesmo. O chamado Nuci - Nível de Utilização da Capacidade Instalada da Indústria, calculado pela FGV, a Fundação Getúlio Vargas - passou de 85% em 2008, época em que as indústrias viviam um auge econômico, para 74,7% em julho de 2017. Ou seja, hoje a ociosidade é superior a 25%.  Embora se considerarmos a média histórica, calculada desde 2005, o uso da capacidade acabou se mantendo em torno de 80,7%, de lá até aqui. Ou, quase 20% de ociosidade.

METAL MECÂNICA - Que fatores além da demanda são responsáveis por este cenário tão desfavorável?
GELLERT - São os mais diversos, mas todos eles originados em problemas de gestão e planejamento. O mais gritante é a quantidade de horas produtivas por dia. Basta comparar a indústria brasileira com a indústria de alguns países desenvolvidos. Na Alemanha, na China e nos Estados Unidos as fábricas produzem quase 24 horas por dia. No Brasil, com algumas exceções, as fábricas produzem, em geral, apenas dentro de um turno de 8 horas. 

Isso, aliás, leva a outra distorção. Aqui no Brasil, a tendência é pensarmos na capacidade instalada considerando apenas um turno de 8 horas. Se pensarmos dentro de um período de 24 horas, e que uma máquina parada também é custo, a capacidade ociosa na indústria do país se mostraria muitíssimo maior.

METAL MECÂNICA - Esse "tempo morto" não é contado.
GELLERT - De qualquer forma, se olharmos pelo outro lado do binóculo, nós teríamos imensos ganhos de escala usando o parque fabril de forma mais intensiva. Realmente, é difícil entender porque as indústrias brasileiras trabalham tão pouco em termos de horas por dia. Não faz o menor sentido investir pesado em uma máquina para deixá-la rodando apenas durante 8 horas, e às vezes até menos do que isso.

Outro aspecto negativo atrelado a este é a questão dos turnos de trabalho. Recentemente, a Fiesp, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, divulgou uma pesquisa feita com 1 mil indústrias em 2017, entre os meses de abril e maio, onde destacou alguns pontos interessantes: nas fábricas paulistas, a utilização de capacidade instalada está atualmente em 67,5%, sendo que o maior nível de uso aconteceu em 2004. Desde lá, a utilização média está em torno de 82,1%.

Mas, para atingir essa capacidade, as plantas fabris utilizaram 7,2% de horas extras sobre o total de horas trabalhadas normais, as tais 8 horas. Obviamente, com as horas extras elas estão sendo capazes de reduzir de forma substancial a ociosidade. Adotando turnos adicionais, esse nível de ociosidade seria reduzido ainda mais, claro.

METAL MECÂNICA - Mas para isso não seria necessário um crescimento exponencial da demanda?
GELLERT - Sim, há a questão da demanda fraca. Essa é hoje a segunda maior preocupação da indústria, de acordo com a CNI, a Confederação Nacional da Indústria, perdendo apenas para a carga tributária, entre os assuntos que mais tiram o sono dos fabricantes. É uma questão realmente impactante e que pesa nos negócios, mas que, por sua natureza, foge totalmente ao controle dos empresários. O que ele poderia fazer então? Não o que muitos estão fazendo atualmente, esperar a retomada da economia para então a demanda aumentar, como um presente divino.

Uma atitude pró-ativa seria a de o empresário manter constantemente em sua cabeça que, aproveitando ao máximo o uso dos recursos disponíveis, poderia aumentar a chance de recuperar e até ampliar os ganhos. Não precisaria, assim, esperar a retomada da economia para que os seus negócios decolassem.

METAL MECÂNICA - Na prática, como ele deveria agir?
GELLERT - Com planejamento e busca de oportunidades em mais de um setor. Buscar maior flexibilidade para o atendimento da demanda de diferentes mercados sempre traz oportunidades inesperadas, como a de aproveitar o eventual aquecimento deste ou daquele setor, produzindo mais para cada um deles nas épocas mais vantajosas. Percebendo o aquecimento de um determinado mercado, poderia usar a sua capacidade ociosa para atender essa demanda. Isso é bastante possível em um segmento como o de usinagem, por exemplo, cujas máquinas podem produzir para praticamente qualquer tipo de cliente - automotivo, brinquedos, alimentício etc. Em alguns outros pode ser um pouco mais difícil, mas de modo algum impossível.

METAL MECÂNICA - Mas ele não precisaria aumentar, concomitantemente, a quantidade de mão de obra? A elevação dos custos não tornaria essa estratégia proibitiva? Não teria também de investir muito em novos maquinários?
GELLERT - Nós estamos em um período no qual uma nova geração de máquinas, mais automatizadas, cada vez mais robotizadas e flexíveis - com uma máquina podendo fazer o papel de várias máquinas - começa a predominar. Muitos empresários já estão investindo nelas, e esse investimento irá certamente aumentar com o tempo.

Quanto ao uso intensivo de mão de obra, isso é algo que tende, cada vez mais, a ficar no passado na área industrial, até por conta das novas tecnologias fabris. Mas mesmo que o empresário não tenha cacife para investir em maquinário mais moderno e polivalente: faz algum sentido uma máquina ficar parada por causa do custo da mão de obra? A ociosidade fabril custará sempre mais, se forem também consideradas as oportunidades perdidas de negócios. Assim, a conta nunca vai fechar corretamente. (texto: Alberto Mawakdiye/foto: Divulgação)

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