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Indústria 4.0: empresas precisam evitar corrida desenfreada pela transformação tecnológica

Marcelo Eskenazi (*)

Digitalização, coleta de dados, automatização, robotização e outros termos relacionados à Indústria 4.0 já são parte das conversas de executivos de várias organizações, mas o caminho a seguir na implementação dessas tecnologias ainda é incerto para alguns, especialmente quando são bombardeados com tantas propostas de soluções que se vendem como “indispensáveis” e, ao mesmo tempo, “urgentes” para manter o negócio vivo em um mercado em constante transformação.

No geral, é incontestável que a Indústria 4.0 pode trazer benefícios em termos de produtividade e, por isso, todos querem embarcar em uma espécie de corrida para não ficar para trás. De acordo com a Agência Brasileira de Desenvolvimento e Indústria (ABDI), tecnologias empregadas nas fábricas para impulsionar o conceito 4.0 devem movimentar US$ 15 trilhões nos próximos 15 anos. Porém, a agência aponta também que apenas 1,6% das grandes empresas já estão plenamente preparadas para “surfar” neste momento da história.

Diante disso, as organizações podem se ver pressionadas a entrar nesta corrida pelas tecnologias sem antes conseguir definir uma jornada sólida rumo à transformação digital, podendo, em alguns casos, até se afastar de algumas tecnologias-chave, seja por uma visão míope do seu estado de maturidade, acreditando que não estão prontas para sua adoção, ou por acharem que estão muito distantes de ter uma operação semelhante à dos cenários mostrados durante o processo de convencimento, logo chegando à conclusão de que “isso não é para o seu negócio”.

Essa ansiedade, no entanto, deveria passar longe desse momento da indústria. Pelo contrário: o mercado deveria manter a calma, mapear suas reais necessidades e planejar e execução dos movimentos necessários, de forma alinhada à revisão do planejamento estratégico, sem perder de vista o zelo contínuo pela eficiência operacional.

Antes de dar início a um projeto de transformação tecnológica, é importante responder a três perguntas básicas. A primeira questão é saber com clareza o que se quer transformar. Entre as respostas possíveis para essa pergunta está, por exemplo, a necessidade de transformar o modelo de negócios com a criação de novos negócios digitais correlatos, ou aumentar as vendas por meio da entrega de uma experiência digital diferenciada dos concorrentes.

Em seguida, é preciso responder quais são as dores das partes interessadas no negócio que devem ser endereçadas durante esta jornada – um projeto de transformação pode ter como foco os clientes, os colaboradores, os parceiros ou mesmo a sociedade. Finalmente, é importante responder à seguinte pergunta: como promover esta transformação envolvendo métodos, processos, pessoas e, por fim, tecnologias?

Sem essas respostas, o preço de não querer ficar para trás pode acabar sendo tão alto quanto o de ficar parado esperando este momento passar. Muitos podem acabar promovendo ambientes altamente complexos, cheio de soluções não integradas e iniciativas descoordenadas, que geram custos adicionais de implantação e manutenção sem gerar os esperados resultados. Além de contar com processos que ainda não estão maduros ou estáveis o bastante para receber essa transformação, o time e os clientes também podem não estar preparados para lidar com esta complexidade sistêmica e grau de inovação tecnológica.

Mais do que nunca, é preciso manter a disciplina, planejar antes de agir, ter clareza de propósito, buscar a melhoria contínua de nossos processos, capacitar frequentemente nossas pessoas e usar, de forma eficaz, a tecnologia na promoção da transformação digital com objetivos claros e alinhados à estratégia de negócio. Para isso, é fundamental contar com uma liderança protagonista, mesmo diante da constante pressão para inovar a todo custo.
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(*) O autor é diretor de Negócios Corporativos da Atech.

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