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Indústria de transformação ocupa só 11,3% do total do PIB brasileiro

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou este mês os dados mais recentes sobre a participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) do país. Os números são para lá de preocupantes. Segundo a CNI, a indústria de transformação ocupa hoje apenas 11,3% do total do PIB brasileiro, menor patamar desde 1947.

Com a indústria tomada em seu todo – ou seja, incluindo um tanto artificialmente a extração de minérios, petróleo, gás natural e a construção civil – a participação seria um pouco maior, 22%, mas esse é um patamar baixo também.

Tamanha queda de participação no PIB não é nada surpreendente quando se constata que 13,8 mil indústrias fecharam no Brasil em três anos, de acordo com a última Pesquisa Industrial Anual Empresas (PIA-Empresas), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Pelo levantamento do instituto, vê-se que havia 321,2 mil indústrias ativas em 2016 no país, 4,1% a menos que em 2013, antes da atual recessão, quando o número de empresas do setor industrial era de 335 mil.

O fechamento das empresas foi mais acentuado entre 2014 e 2015, período em que 10,5 mil indústrias fecharam as portas. Segundo o IBGE, as indústrias de transformação representam quase a totalidade das empresas do setor. As extrativas correspondem a cerca de 2% do total de indústrias no país, tão somente.

Para piorar, entre 2013 e 2016 os investimentos no setor industrial sofreram uma queda de 23,85%. Outro claríssimo sinal de debilidade da indústria brasileira.

Os reflexos na qualidade dos empregos do país também são evidentes – levando-se em conta que os empregos industriais são, em geral, os mais qualificados e os que melhor remuneram. Segundo a CNI, em 1986, quando a indústria era ainda o motor principal da economia brasileira, esse setor respondia por 27% dos empregos com carteira assinada. Hoje, representa apenas 15% do total.
Apenas entre 2013 e 2016, segundo o estudo do IBGE, em consequência do fechamento de empresas, houve redução de 1,3 milhão no número de postos de trabalho do setor industrial brasileiro. Em 2013, eram 9 milhões de empregados na indústria e em 2016 o total de empregados era de 7,7 milhões, queda de 14,25%.

Os efeitos nas trocas comerciais com o exterior foram também significativos. Enquanto produtos básicos como a soja, o milho e outras commodities agrícolas e minerais respondem hoje por 50% das exportações do país, os produtos manufaturados já são 83% de tudo que o Brasil importa.

Ou seja, enquanto o planeta já fala na quarta revolução industrial e na economia do conhecimento, o Brasil vai voltando a ser um mero exportador de commodities, como o foi até a década de 1930, quando o processo de industrialização começou por aqui. Com todas as desvantagens competitivas deste tipo de opção.
Detalhe: o Brasil importa cada vez mais bens industriais de alto valor agregado. A ironia é que o Brasil já chegou a produzir muitos dos itens de alto valor que hoje importa.

Os economistas são mais ou menos unânimes em apontar as causas principais do processo de desindustrialização brasileira: a incapacidade da indústria nacional em acompanhar o avanço tecnológico, os juros e as taxas de câmbio desfavoráveis à produção local, a migração de plantas industriais para outros países, a estagnação do consumo devido ao baixo nível de renda e o processo de financeirização da economia.

“Há, basicamente, dois tipos de desindustrialização. A desindustrialização madura, em que, à medida que o país eleva a renda da população, esta vai concentrando a sua renda na aquisição de bens industriais e derivando-se para trabalhar na área de serviços, em geral bastante qualificada. E a desindustrialização precoce, que é o nosso caso, em que a indústria vai perdendo importância porque a população foi limitada em sua capacidade de adquirir bens industriais, e ainda acaba obrigada a migrar para uma área de serviços de baixa qualificação”.
(Márcio Pochmann, economista, professor e político)

De fato, os serviços que hoje crescem no Brasil não são mais os que estão vinculados à produção, mas à concentração de renda e ao consumo: trabalho doméstico, segurança, passeador de cachorro, limpador de piscina, personal trainer etc. São ocupações que não dependem da indústria, mas da renda concentrada de algumas poucas famílias dentro da massa da população.

Talvez a região do país que mais vem sofrendo com a desindustrialização seja o ABC paulista, o berço da indústria automotiva e um importante símbolo da industrialização brasileira.

De acordo com um estudo da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (Uscs), o PIB industrial das sete cidades que compõem a região passou, em valores nominais, de R$ 28,9 bilhões em 2013 para R$ 24,3 bi em 2016, queda de 16%.

Em termos reais, descontada a inflação, a retração foi de 39%. Acima do Brasil (11,5%) e do estado de São Paulo (14,7%). Diga-se que, ali, o processo de desindustrialização foi acelerado também devido à migração de indústrias para outros locais do estado e do país, para fugir da descontrolada urbanização da região.

“O ABC também reflete a crise de demanda que atingiu todo o país e a perda generalizada da atividade industrial, acentuada desde 2014. O fato de a região ser ainda o segundo maior polo industrial do Brasil, só atrás da região metropolitana de São Paulo, é outra explicação deste impacto enorme que vem sofrendo”.
(Luis Paulo Bresciani, professor da Uscs e consultor do Dieese-Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos)

A produtividade do trabalho na indústria brasileira também pode estar começando a cair à medida que a indústria regride. Outro estudo da CNI mostra que a produtividade na indústria de transformação do país aumentou 0,9% em 2018 na comparação com 2017, mas tratou-se de um crescimento para lá de enganoso.

De fato, embora tenha sido o quarto ano consecutivo de crescimento do indicador, o resultado foi tido como ruim pela CNI, já que o índice foi consideravelmente menor do que a expansão de 4,5% registrada no ano anterior.

As razões deste desempenho próximo do negativo, de qualquer maneira, foram tanto estruturais como conjunturais. Para a CNI, o baixo crescimento da produtividade em 2018 resultou do aumento da incerteza e da frustração com o crescimento da demanda ao longo do ano passado.

“São fatores que influenciam muito, também. A produtividade é um dos principais determinantes da competitividade da indústria. Se o conjunto da economia não vai bem, ela tende a acompanhar essa tendência”.
(Renato da Fonseca, gerente-executivo de pesquisas da CNI)

As perspectivas para o futuro próximo não são nada boas. A indústria brasileira continua não apenas longe da recuperação, como dá nítidos sinais de que continua a andar para trás. De acordo com o IBGE, nada menos do que metade dos 26 setores industriais acompanhados pelo órgão ficou no vermelho em 2018.

O cenário não melhora quando estes setores são desagregados, como o fez o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Segundo levantamento da entidade, o voo para baixo ocorreu com 46% de 93 segmentos industriais. Para 57% do total destes segmentos, 2018 foi pior do que 2017.
Pelos dados do Iedi, dentre os 50 segmentos com crescimento em 2018, 41 conseguiram resultado melhor do que o da indústria como um todo, ou seja, menos da metade (44%) do total cresceu mais do que o ínfimo 1,1% registrado de janeiro a dezembro do ano passado. Como termo de comparação, em 2017, 45 segmentos (48%) avançaram mais do que o resultado geral do setor (2,5%).

Uma solução defendida por muitos economistas é a retomada do papel indutor do Estado, principalmente nos setores mais estratégicos, como na área financeira, por exemplo, pela capacidade de investimento e crédito, e na área do petróleo. E ainda aumentar a produção de conhecimento, com políticas públicas para a educação nas universidades e nos laboratórios de pesquisa.

“Seria necessário ainda mudar a política comercial, no sentido de encontrar nichos estratégicos onde o Brasil tem competitividade em relação ao resto do mundo e protegê-los, assim como as economias avançadas protegem os seus”.
(Paulo Kliass, doutor em economia e especialista em políticas públicas)

FONTE: IPESI

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