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O leilão do 5G não é só o que importa

Carlos Eduardo Sedeh (*)

Março de 2020, é para quando a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) marcou o leilão das frequências das redes de alta velocidade do 5G, e muito já se fala que o Brasil pode fazer um dos maiores leilões do mundo. Mas essa tecnologia deve ser pensada para além desse marco. O 5G significa a chegada de uma nova classe de serviços e tecnologia de redes de acesso, e por isso, deve ser tratada com o devido olhar estratégico. Como será implantada importa muito mais do que quando.

Se o leilão for encarado somente de maneira arrecadatória, nós perderemos grandes oportunidades, por exemplo, de universalização da rede nas áreas mais remotas. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2017, divulgada pelo Comitê Gestor da Internet (CGI.br), o número de domicílios rurais que não tem nenhuma forma de acesso à internet chega a 75%, para se ilustrar a enorme demanda represada.

Por isso, é necessário colocar luz nas questões técnicas. Podemos começar cooperando com outros países como Estados Unidos, Coreia do Sul, além da China – que se prepara para ativar o 5G ainda este ano – que já investem nessa tecnologia e tem resultados que podem nos ajudar a tomar melhores decisões. Nações que tenham semelhanças topográficas, dimensionais e prioridades mercadológicas parecidas, também podem nos subsidiar com informações, para que seja criada uma estratégia consistente.

O 5G é uma rede totalmente disruptiva, nova, diferente do que já existe. Logo, sua infraestrutura demandará grande investimento por parte das operadoras móveis. Diferentemente do 3G e 4G, os equipamentos serão outros e com alto custo. Deste modo, além de elementos técnicos, é necessário ser criado um marco regulatório forte e estável. Assuntos como tributação diferenciada para IoT, situações especiais que permitam a importação de equipamentos de 5G com subsídios nos impostos e financiamento, são temas que devem ser direcionados.

Se as companhias não tiverem incentivo ou regulamentação sólida para investir, é provável que a velocidade desejada com essa inovação, mesmo que o leilão ocorra no prazo marcado, só chegue, de fato, bons anos depois.
As definições a serem feitas são inúmeras: passam por qual faixa será usada, a utilização de equipamentos e de postes, qual será o papel das operadoras de fibra óptica (essenciais para interligação dos pontos de presença das operadoras móveis), quais as metas de universalização, entre outras. Por isso, é preciso definir uma estratégia. O leilão não é um fim em si mesmo. O que vem depois é o que realmente importa.

Durante o tempo de maturação do projeto, também é necessário esclarecer boatos que rondam a tecnologia 5G. Fake news que vão de possível extinção das abelhas, passando pela morte massiva de pássaros e até aumento de incidência de câncer, servem para desinformar a opinião pública. A intensidade dos falsos rumores alertou, inclusive, a Anatel, que estuda produzir um guia para elucidar as informações em torno do 5G.

A chegada dessa inovação é uma oportunidade para empresas e para o mercado no geral, mas para que ela seja boa no futuro é preciso tomar decisões corretas desde o princípio. O custo de errar nesse momento pode ser muito alto, algo que pode inviabilizar a experiência dessa tecnologia no longo prazo.
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(*) O autor é CEO da Megatelecom, e diretor Executivo da Telcomp (Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas).

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