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Abinee projeta inflação acima da meta e aperto monetário em 2023

A Abinee projeta inflação fora da meta e aperto monetário em 2023, conforme “Carta Conjuntura”, produzida pelo diretor de economia da associação, Celso Luiz Martone, publicada abaixo.

Ao contrário da maioria dos países desenvolvidos, o Brasil avançou substancialmente na luta contra a inflação em 2022. Dois dos índices de preços mais importantes (o IPCA e o IGP-DI) devem fechar o ano com aumento em torno de 6%, contra 10,1% e 17,8% no ano anterior, respectivamente.

Entretanto, a inflação ainda está longe de se aproximar da meta estabelecida pelo governo de 3,25% para 2023, o que significa que a fase de aperto monetário, iniciada em março do ano passado, ainda deve continuar por um longo tempo.

A queda da inflação, embora sempre bem-vinda, esconde um fenômeno preocupante para o futuro próximo. Quando separamos o IPCA entre preços “livres” (determinados nos mercados) e “preços administrados” (determinados pelo poder público), verificamos que os ganhos obtidos decorreram totalmente da queda (deflação) dos preços administrados. Em 2021, os livres subiram 7,7% e os administrados subiram 18,9%. Em 2022, os livres devem fechar o ano acima de 9%, enquanto os administrados devem ter deflação da ordem de 3,5%. O Gráfico 2 mostra as variações mensais dos dois tipos de preços desde 2018 até outubro de 2022 (em azul os administrados e em laranja os livres). Essa disparidade decorreu das medidas fiscais adotadas pelo governo e pelo Congresso (redução do ICMS e eliminação de impostos federais sobre combustíveis).

O problema é que essa desoneração fiscal, responsável pela queda da inflação, é um jogo de um tiro só: uma vez feita, não há como repeti-la. Além disso, dada a frágil situação fiscal do Governo Federal, conceder subsídios para “segurar” os preços administrados não é uma possibilidade. Pelo contrário, é provável que seja necessário elevar os preços administrados em 2023 para preservar a saúde financeira das empresas nas áreas de petróleo e gás, energia elétrica, telecomunicações e transporte. Portanto, a continuidade da queda da inflação dependerá totalmente do comportamento mais favorável dos preços livres.

Quatro fatores podem influenciar o comportamento dos preços livres: os preços internacionais de commodities; a taxa de câmbio; a taxa de juro e a política fiscal do governo. É esperada uma queda da ordem de 20-25% dos preços em dólares das commodities no próximo ano, consequente do menor crescimento das economias desenvolvidas e da própria China, o que ajuda a derrubar tanto os preços por atacado quanto ao consumidor.

A taxa de câmbio, que tem se mantido relativamente estável ao redor de R$5,20/USD nos últimos meses, é sempre uma incógnita. Como sabemos, no curto prazo ela é totalmente dominada pelos movimentos de capital, que por sua vez reagem ao estado de confiança dos agentes no governo e no futuro da economia. A mudança do governo Bolsonaro para o governo Lula deve inicialmente provocar incertezas e cautela até que o novo governo defina sua política econômica. Portanto, o câmbio pode atuar positiva ou negativamente em relação à inflação.

Os efeitos da elevada taxa real de juro sobre a demanda ainda estão agindo e devem contribuir para certo arrefecimento dos preços livres em 2023. Mas sempre devemos lembrar, do lado negativo, que isso ocorre concomitantemente com o esfriamento da economia e seu menor crescimento.

Finalmente, os rumos da política fiscal ainda são incertos. As promessas da campanha eleitoral excedem em muito o teto de gastos fixado no orçamento federal de 2023 e irão exigir a revogação do teto, o que é difícil por ele estar inserido na Constituição, ou uma nova PEC “emergencial” dando ao novo governo a liberdade para gastar. As consequências de uma política fiscal expansiva, neste momento, podem ser altamente negativas, tanto para as expectativas dos agentes quanto ao risco fiscal do País, quanto para a atividade econômica, pois forçarão o Banco Central a apertar ainda mais a política monetária. Como sabemos, a combinação “easy fiscal, tight money” é a pior possível para a economia.

Em resumo, a perspectiva da taxa de inflação para 2023 ainda é nebulosa. Neste momento, espera-se que seja possível obter pequena queda (para algo como 5%) em 2023 e convergência para a meta (3,25%) em 2024. Porém, esses números favoráveis ainda dependem do desenrolar dos fatores destacados na análise acima.

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