Trump exagera na dose e impõe tarifa sem base técnica ao Brasil: o que deve acontecer agora?
Marcos Hanna
A nova tarifa anunciada no dia 9 de julho por Donald Trump possui algumas características peculiares em relação às tarifações anteriores. A primeira é a magnitude. Com uma tarifa geral base de 50%, o Brasil passa a ocupar o primeiro lugar no ranking de tarifas gerais impostas a outros países pelos Estados Unidos. Esse exagero se afasta de uma justificativa técnica, uma vez que o Brasil possui déficit comercial nas trocas com os EUA. Adicionado a isso, há uma menção direta a assuntos políticos, com a desaprovação acentuada de Trump ao julgamento do ex-presidente Bolsonaro, chamando o ocorrido de “caça às bruxas”.
Dado esse contexto, é difícil dizer se a racionalidade prevalecerá de ambos os lados para que haja uma desescalada na tensão comercial e política. Julgando por um prisma mais técnico, há menor chance de se manter um patamar de 50% nas tarifas considerando que o Brasil possui certa relevância para as importações americanas e atualmente não se apresenta como um país em que há grande desequilíbrio comercial com os EUA.
O impacto mais direto para o mercado brasileiro se concentra em empresas exportadoras, principalmente aquelas que possuem maior dependência do mercado americano, como as siderúrgicas (que já sofrem uma tarifação mais elevada de tarifas específicas anteriores) e as grandes produtoras de carnes (JBS, por exemplo, com mais da metade de sua receita derivada de exportações aos EUA). A Embraer também sentirá efeitos da tarifação devido à elevação nos custos e incapacidade de repassar o aumento da tarifa integralmente para seus clientes, comprimindo sua margem. Outras empresas que tendem a ser afetadas negativamente são empresas com elevado custo de produção e custo da dívida em dólar, uma vez que há pressão para desvalorização do real em um cenário de balança comercial se deslocando para o lado americano.
O setor agrícola também possui elevada participação nas exportações brasileiras, exportando aproximadamente metade de sua produção. Entretanto, uma parcela menor é destinada aos EUA – aproximadamente 6% do valor exportado. É natural que haja um redirecionamento de exportação, aproximação de outros parceiros comerciais e repasse de tarifas para o preço dos produtos exportados, de forma que os impactos sobre as empresas brasileiras seja menos acentuado. Entretanto, se houver de fato uma alta compressão de margem e redução de competitividade de setores cruciais para a produção brasileira, espera-se uma redução no PIB acompanhada de elevação de desemprego.
Das empresas listadas na B3 que possuem maior fragilidade e exposição ao aumento tarifário temos em maior escala: siderúrgicas (Gerdau, CSN, Usiminas), carnes (JBS e Marfrig) e Embraer. Em menor escala: Petrobrás, Suzano e Vale, pois possuem menos exposição à importação americana e/ou possuem maior capacidade de redirecionar as exportações para outros países.
Olhando apenas para a imposição de tarifas sobre o Brasil e por sua magnitude (caso se mantenha como uma das maiores), não haveria um setor ou empresa que se beneficiaria. Entretanto, possíveis benefícios poderiam surgir caso tarifas maiores fossem impostas a competidores brasileiros por mercado americano (China, por exemplo).
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Marcos Hanna é economista da Armada Asset Investimentos.