Metal Mecânica
“A automação hoje é essencial”

Para João Carlos Visetti (foto), CEO da Trumpf do Brasil, empresa de origem alemã que em 2026 completa exatos 45 anos de atuação no país, o sucesso da companhia no mercado industrial local não é difícil de explicar: o Brasil saiu neste período de uma indústria puramente mecânica para uma era de conectividade, alta precisão e automação, e o que antes era visto como “luxo” – o corte a laser de alta potência ou a dobra automatizada – hoje é uma necessidade de sobrevivência.
“Mudou entre os industriais brasileiros a percepção de valor sobre a tecnologia”, diz Visetti. “Muitas empresas acabaram por entender que, sem processos automatizados e máquinas inteligentes na linha de produção, não conseguiriam manter a produtividade e a qualidade. Além disso, a escassez de mão de obra especializada também acelerou a busca por automação”.
Reunindo atualmente cerca de 90 empresas, o Grupo Trumpf está presente em quase todos os países europeus, bem como na América do Norte, América do Sul e Ásia. Na Europa, a companhia possui unidades de produção na Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Áustria, Suíça, Polônia e República Tcheca. Na América do Norte, suas fábricas ficam nos Estados Unidos e no México e, na Ásia, na afluente China.
No período ano 2024/25, a Trumpf mantinha em seu quadro funcional 17.750 colaboradores e gerou vendas de cerca de 4,3 bilhões de euros.
A especialidade da companhia é oferecer soluções de manufatura de alta tecnologia nas áreas de máquinas-ferramentas e tecnologia laser. Também impulsiona a conectividade digital na manufatura por meio de consultoria, produtos de plataforma e softwares, sendo uma das líderes de mercado em tecnologia de máquinas-ferramentas altamente versáteis para processamento de chapas metálicas e na área de lasers industriais.
No Brasil, a empresa mantém sede na cidade de Barueri, na Grande São Paulo, de onde coordena uma operação solidificada e com abrangência para prover assistência técnica a seus clientes nas mais diferentes regiões do país, sendo responsável também por dar suporte às operações da Trumpf na América do Sul.
A companhia consolidou a presença no país especialmente devido à sua participação nos mercados de corte a laser e dobra.
Visetti observa: “As TruLaser Série 1000 e TruBend Série 1000 abriram novos mercados. São dois produtos extremamente bem aceitos no segmento de entrada, por serem máquinas com preços acessíveis mesmo para pequenas empresas”, afirma.
Ele acrescenta que máquinas de alta produtividade, como a TruLaser 5000, e de dobra automatizada (TruBend Cell 5000 e TruBend Flex Cell 7050) também vêm ganhando relevância no Brasil.
“Na verdade, somos competitivos não apenas no segmento premium com as máquinas da série 5000, mas também no intermediário com as máquinas da série 3000 e no de entrada, com as máquinas da série 1000. Evoluímos e continuamos a evoluir nos três segmentos”, observa o executivo, que ainda destaca a venda do primeiro sistema automatizado para chapas de 6 x 2,5 metros no Brasil, um dos poucos existentes no mundo.
“O sistema é composto por duas máquinas de corte TruLaser 3060 fiber de 24 kW, um sistema de alimentação automática e um armazém de grande escala Stopa”, detalha o CEO da Trumpf do Brasil.
A seguir, trechos da entrevista.
METAL MECÂNICA – A Trumpf está no Brasil há 45 anos. O que mudou na indústria brasileira nesse período?
JOÃO CARLOS VISETTI – Mudou a percepção de valor sobre a tecnologia. Saímos de uma indústria puramente mecânica para uma era de conectividade, alta precisão e automação. O que antes era visto como “luxo” – o corte a laser de alta potência ou a dobra automatizada – hoje é uma necessidade de sobrevivência.
Além disso, a escassez de mão de obra especializada acelerou a busca por automação. Muitas empresas entenderam que, sem processos automatizados e máquinas inteligentes, não conseguem manter produtividade e qualidade.
O industrial brasileiro percebeu que não se compete globalmente com máquinas obsoletas. A maturidade do setor aumentou; hoje discutimos Indústria 4.0 e integração de dados no chão de fábrica, algo impensável há quatro décadas.
METAL MECÂNICA – O sr. considera que a Trumpf teve participação nesta mudança? De que maneira?
VISETTI – Sem dúvida. Fomos pioneiros em trazer as maiores potências de laser para o país, de 3 quilowatts até os atuais 24 quilowatts. Nossa participação foi democratizar o acesso à tecnologia de ponta. Não apenas vendemos máquinas, mas educamos o mercado. Sem contar que somos “Trumpf” e estamos há 45 anos no país, e não simplesmente um grupo de pessoas representando uma marca que pode desaparecer da noite para o dia, como já ocorreu com muitos equipamentos no mercado, deixando o cliente na mão.
Fomos pioneiros na automação e na produção eficiente com lasers de fibra, reduzindo o consumo de N2 em mais de 60%. Introduzimos tecnologias em nossas máquinas, como a High Speed, a High Speed Eco, a CoolLine e a Flex Line, que nos permitem produzir o mesmo com qualidade usando apenas 50% de potência laser.
METAL MECÂNICA – A Trumpf prefere trabalhar em nichos ou “cavoucar” espaços em áreas promissoras?
VISETTI – Temos soluções completas, modulares, integráveis para todos os tamanhos de empresas, da menor com processos manuais até as maiores automatizadas e digitalmente integradas. Nossa preocupação é oferecer mais produtividade e o menor custo por peça produzida, seja qual for o tamanho da empresa. Sempre respeitando as normas de segurança brasileiras e internacionais.
METAL MECÂNICA – Qual o perfil médio do cliente da Trumpf no Brasil?
VISETTI – O perfil é muito diversificado. Vai desde a pequena empresa familiar, que está comprando sua primeira máquina de entrada para ganhar eficiência, até grandes multinacionais e fabricantes de implementos agrícolas. O traço comum entre eles é o desejo por produtividade. É o empresário que percebeu que a falta de mão de obra especializada só pode ser suprida com automação e máquinas inteligentes que “aprendem” o processo.
METAL MECÂNICA – A Trumpf comercializa no Brasil os mesmos produtos que na Europa e Ásia?
VISETTI – Sim, o portfólio tecnológico é global. O que muda é o mix de vendas. Enquanto mercados como o norte-americano são consumidores mais intensivos de tecnologias ultrassofisticadas de forma imediata, o Brasil ainda tem um volume muito forte nos modelos de entrada, a Basic Edition.
No entanto, não vendemos “tecnologia de segunda”. Uma máquina de entrada nossa no Brasil possui o mesmo rigor de engenharia de uma máquina ultra avançada vendida na Alemanha; ela apenas é simplificada para ter um preço mais acessível ao industrial local.
METAL MECÂNICA – Quais os grandes campeões de venda no Brasil? A que atribui este sucesso?
VISETTI – Nossos campeões são as máquinas de corte a laser de fibra e as dobradeiras TruBend. O sucesso se deve à robustez. No Brasil, a máquina precisa trabalhar muito e aguentar oscilações. Atribuo esse sucesso também à nossa assistência técnica.
METAL MECÂNICA – No mundo, a Trumpf viveu um cenário de queda em 2025, mas no Brasil cresceu 24%. Como explicar isso?
VISETTI – O mundo sofreu com incertezas geopolíticas e taxas de juros na Europa e Estados Unidos. Já o Brasil vive um momento de “retomada da casa”. Muitas empresas decidiram fabricar localmente em vez de depender da China.
Além disso, setores como o agronegócio e a construção mantiveram investimentos em bens de capital. Enquanto o mundo pisou no freio, o industrial brasileiro, que já está acostumado a crises, viu na tecnologia a única saída para manter a margem em um cenário de custos crescentes.
METAL MECÂNICA – Quais os planos e estratégias para o Brasil nos próximos anos?
VISETTI – Nossa estratégia é a automação total. O foco não é mais apenas a “máquina rápida”, mas o fluxo de material em volta dela. Vamos investir pesado em sistemas de carga e descarga automática e softwares de gestão de produção.
Queremos que o cliente brasileiro faça “mais com menos”. Continuaremos expandindo nossa presença em feiras como a Feimec e a Expomafe para mostrar que a alta tecnologia, além de estar disponível, é viável para o bolso do brasileiro.
(texto: Alberto Mawakdiye/foto: divulgação)
