Metal Mecânica

Brasil pode sair do ranking dos 10 países mais industrializados na próxima década

 

 

 

Trata-se de uma previsão, sem dúvida, desalentadora. Mas o Brasil está com todo o jeito de que pode começar a década de 2020 fora do ranking dos 10 maiores países industriais do mundo, graças ao crescente encolhimento do setor nas últimas décadas. Hoje, o Brasil ocupa a nona posição neste ranking.

 

Os números são eloquentes. A indústria, que já representou 22,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 1976, hoje responde por algo em torno de 12% – com viés de baixa, já que esta participação poderá sofrer nova retração este ano.

 

Só nos cinco primeiros meses de 2019, a indústria já acumulava uma queda de 0,7%. No estado de São Paulo, o mais industrializado do Brasil, foi verificado o fechamento de nada menos do que 2.325 indústrias neste mesmo período.

 

É o pior desempenho entre as grandes áreas da economia – que é sustentada, basicamente, pela indústria, agropecuária e mineração e comércio e serviços. De fato, entre 2014 e 2018, o PIB brasileiro acumulou queda de 4,2%, enquanto o da indústria de transformação caiu 14,4%.

 

“Significa que a produção caiu demais, e isso obviamente teve impacto nas empresas, com fechamento de fábricas e demissões”.

(José Roberto Mendonça de Barros, economista da consultoria MB Associados)

 

O retrocesso é tal que, enquanto a produção industrial no resto do mundo cresceu 10% desde 2014, a atividade fabril brasileira caiu 15% no mesmo período.

 

Trata-se de um cenário que está empurrando o país para trás no cenário mundial. Um levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) mostra que o setor no Brasil teve a terceira maior retração entre 30 países desde 1970, ficando atrás apenas da Austrália e do Reino Unido.

 

“À exceção da Argentina e Venezuela, a crise industrial do Brasil foi uma das mais profundas da América Latina, e a recuperação tem sido das mais frustrantes possíveis também”.

(Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial -Iedi)

 

Dentre as razões mais imediatas para este fraco desempenho brasileiro, aponta-se a queda nas exportações para a Argentina, que afetou os manufaturados e pode ter tirado até 0,7 ponto porcentual do PIB em 2017 e 2018, o rompimento das barragens da Vale e a greve dos caminhoneiros, em maio do ano passado.

 

Mas há causas também de origem estrutural. A desindustrialização reflete tanto a demanda fraca quanto problemas de competitividade, produtividade e inovação, assim como a complexa estrutura tributária, o baixo investimento, o parque produtivo obsoleto e a infraestrutura precária.

 

Principalmente as pequenas e médias empresas vivem hoje numa verdadeira retaguarda tecnológica, sem instrumentos de crédito e, sobretudo, de conhecimentos avançados, que possam traduzir o eventual dinamismo empreendedor em produtividade e em uma produção de vanguarda.

 

“Na verdade, este é um fenômeno que vem afetando toda a América Latina, mas tendo o Brasil como o destaque negativo. Enquanto nos países emergentes, excluindo a China, a atividade das fábricas cresceu 8% desde 2014, na América Latina o desempenho foi de queda de 4%”.

(Laura Karpuska, economista da consultoria BlueLine Asset)

 

Diga-se que a desindustrialização não é – por ela só – algo necessariamente negativo. Nos dois países que tiveram declínio na produção industrial mais forte que a do Brasil – Austrália e Reino Unido – a renda da população estava subindo quando a queda do desempenho da indústria começou. Só que essa renda continuou aumentando a um ritmo muito superior ao do Brasil nos anos que se seguiram.

 

A explicação é clássica. Quando um país se desenvolve, a renda per capita das famílias cresce e, com isso, é natural que eles passem a consumir mais serviços e menos bens. Isso faz com que haja uma redução no peso do setor da indústria no PIB ao longo do processo de enriquecimento dos países, como aconteceu nos Estados Unidos, na Europa e no Japão.

 

O que aconteceu no Brasil foi o que os economistas chamam de “desindustrialização prematura”, presente quando a indústria começa a perder peso na estrutura produtiva antes de a população enriquecer. Esse processo de desindustrialização teve dois períodos em destaque, entre 1981-98 e de 2009 até hoje.

 

“Desde 1981 a nossa renda per capita aumentou pouco, de US$ 12 mil para US$ 15 mil. Nos outros países ela aumentou muito mais. A desindustrialização é precoce não só porque a indústria perdeu participação muito cedo, mas porque a renda per capita também avançou muito pouco”.

(Paulo Morceiro, economista e pesquisador)

 

Outro fato negativo é que, em outros países, ao perder a participação no PIB, a indústria migra para serviços dinâmicos, a partir de um investimento anterior na área tecnológica. Atualmente, os países desenvolvidos já investem na indústria 4.0, que integra diversas tecnologias, um segmento em que o Brasil apenas engatinha.

 

Nos EUA, por exemplo, a indústria vem claramente perdendo participação, mas as indústrias que estão sobrevivendo são de cunho tecnológico – por exemplo, empresas que produziam computadores começaram a desenvolver softwares. No Brasil, a indústria que perdeu participação não conseguiu amadurecer.

 

“Dois terços da nossa produção industrial são de baixa ou média tecnologia, e a que migrou para a área de serviços acabou mergulhada em segmentos de menor qualidade, como o informal e o comércio”.

(Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial-(Iedi)

 

Hoje é difícil imaginar que o Brasil já foi mais industrializado do que a China. Em 1980, o parque industrial brasileiro correspondia a 4,11% da indústria mundial. A China, atual gigante industrial, na época tinha uma participação de 1,65%, tendo ultrapassado o Brasil já nos anos 1990.

 

O Brasil corre agora o risco de ser inclusive ultrapassado por alguns países africanos. De acordo com recente previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI), da lista das dez economias que mais crescerão em 2019 seis são africanas, dentre as quais a da surpreendente Etiópia, que vem desde 2015 recebendo muitos investimentos industriais chineses.

 

Ainda em 2017, a África foi a região do mundo que registrou a maior porcentagem de crescimento de usuários da internet: 20%. Os polos de desenvolvimento baseados em startups também vêm crescendo em vários países africanos, com destaque para a Nigéria e a África do Sul.

 

“O processo de industrialização da África é um dos fatos mais importantes do nosso tempo, e devia ser mais bem estudado pelos brasileiros”.

(Luiz Felipe de Alencastro, historiador e cientista político)

 

O “caso chinês” também mereceria um estudo mais atento. O sucesso da industrialização naquele país deveu-se à definição de políticas industriais com metas específicas e consistentes, e a exigência de resultados concretos das empresas que receberam recursos do governo.

 

Mas os chineses tampouco inventaram a roda. Todos os países industriais mantiveram políticas industriais desde sempre. No Japão, desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45), são feitos gigantescos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, e as universidades públicas incentivam o registro de patentes, o que ajudou no desenvolvimento do setor de microeletrônica, por exemplo. No Coreia do Sul, os bancos públicos tiveram alta participação na arrancada do setor industrial.

 

No Brasil, os recursos investidos em P&D são pífios, e o registro nacional de patentes ainda é irrisório. E a grande instituição de fomento, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), vem há vários anos apoiando setores mais tradicionais da indústria, como o de carnes e minério de ferro. São setores que não se destacam pela inovação, nem pela montagem de cadeias produtivas complexas.

 

“Mas, além de uma política industrial, precisamos também de uma abertura comercial favorável ao país, uma agenda de competitividade, normas regulamentadoras, desburocratização, melhoras na legislação trabalhista e tributária, além de um combate efetivo ao Custo Brasil. E precisamos de tudo isso o mais rapidamente possível”.

 

(João Carlos Marchesan, presidente do Conselho de Administração da Abimaq)

 

(Texto: Alberto Mawakdiye)

 

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