Comunidade quilombola potiguar sofre com ruído gerado por parques eólicos
Uma pesquisa conduzida por alunos da graduação e pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com apoio do CNPq, revela os efeitos nocivos do ruído gerado por parques eólicos sobre a Comunidade Quilombola de Macambira, localizada na Serra de Santana, município de Lagoa Nova (RN). O estudo, que traz dados inéditos sobre os níveis de pressão sonora e os relatos dos moradores afetados, será apresentado durante o Inter-Noise – International Congress & Exposition on Noise Control Engineering, de 24 a 27 de agosto de 2025, em São Paulo -, um dos mais importantes congressos internacionais dedicados à engenharia acústica e ao controle de ruído. O evento é organizado pela Associação Brasileira para a Qualidade Acústica (ProAcústica).
Embora a energia eólica seja considerada uma alternativa sustentável para a redução das emissões de gases de efeito estufa, sua implantação no Rio Grande do Norte – estado líder em produção eólica no Brasil – tem gerado impactos severos em comunidades urbanas, rurais e tradicionais. A pesquisa aponta que os aerogeradores estão localizados a apenas 100 metros de algumas residências, o que contraria recomendações técnicas e compromete o conforto acústico dos moradores.
Principais achados da pesquisa:
– Níveis de ruído acima da legislação vigente, com base na norma ABNT NBR 10151:2019, que estabelece limites de 40 dB durante o dia e 35 dB à noite em áreas rurais.
– Arquitetura das casas tradicionais – com telhados de cerâmica e janelas abertas para ventilação natural – dificulta o isolamento acústico.
– Ruído contínuo das turbinas, inclusive à noite, com sons de baixa frequência que causam incômodo e afetam o sono.
– Relatos de moradores sobre insônia, uso de medicamentos para dormir, depressão e irritabilidade.
– Casos judiciais: há ações individuais e coletivas contra empresas do setor, incluindo uma indenização já concedida a uma moradora que precisou abandonar sua casa.
– Ausência de benefícios prometidos: moradores relatam que não houve geração de empregos locais nem melhorias na infraestrutura da comunidade.
– Modelos variados de aerogeradores dentro de um mesmo parque, com diferentes níveis de ruído e comportamento sonoro conforme a velocidade do vento.
– Comparação com medições anteriores à implantação dos parques,que indicam aumento significativo nos níveis sonoros.
A pesquisa dialoga com estudos realizados pela Fiocruz e pela Universidade de Pernambuco, que identificaram a chamada “síndrome da turbina eólica” – um conjunto de sintomas físicos e psicológicos associados à exposição prolongada ao ruído das turbinas. A UFRN realizou medições em dez pontos da comunidade e entrevistas com moradores, além de registros sonoros durante a madrugada.
Segundo os pesquisadores, o ruído dos aerogeradores se sobrepõe ao silêncio natural da zona rural, tornando-se um elemento invasivo e constante. A falta de regulamentação específica para o setor eólico no Brasil agrava a situação, deixando comunidades vulneráveis e sem mecanismos eficazes de proteção.


