Eletrônica e Informática

Crescente uso de IA por alunos e professores acontece sem diretrizes claras

O uso intenso e diversificado da inteligência artificial por alunos e professores ainda ocorre sem diretrizes claras, ampliando dúvidas sobre o aproveitamento das oportunidades trazidas por essa tecnologia. Essa é uma das constatações do novo Estudo Setorial “Inteligência Artificial na Educação: usos, oportunidades e riscos no cenário brasileiro”, conduzido pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).

 

O diagnóstico qualitativo realizado a partir de entrevistas em profundidade com especialistas do setor no país e da condução de grupos focais, com professores e alunos de escolas públicas e privadas de São Paulo (SP) e Recife (PE) -, foi apresentado no dia 25 de novembro, no Seminário Inova IA 2025, realizado no Rio de Janeiro.

 

A pesquisa revela que a IA generativa tem transformado a relação entre educadores, estudantes e as práticas de ensino e aprendizagem. Nos grupos focais, docentes indicaram o potencial da IA para otimizar o tempo de planejamento, diversificar estratégias pedagógicas e personalizar o ensino. A tecnologia também pode, segundo eles, apoiar a análise de dados educacionais, a gestão escolar e a inclusão de diferentes perfis de aprendizagem. Para os estudantes, a IA pode apoiar a resolução de tarefas, ampliar o repertório e estimular a curiosidade.

 

O estudo também aponta desigualdades quanto à adoção da IA entre as redes de ensino pública e privada. Estudantes e docentes de escolas privadas relataram maior familiaridade e acesso a ferramentas de IA, enquanto os de escolas públicas enfrentam maiores dificuldades de conectividade e falta de equipamentos. Para todos os grupos analisados, atividades formativas são consideradas pontuais e ainda incipientes, mas há um forte interesse em sua ampliação e continuidade.

 

“O estudo mostra que a IA já está presente no universo escolar brasileiro, mas o uso é realizado de modo espontâneo e desigual. Professores e alunos vivem o desafio de aprender a lidar com uma tecnologia que se disseminou rapidamente, colocando novas reflexões e demandas às políticas educacionais e à formação docente”, avalia Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br | NIC.br.

 

Divulgada em setembro pelo Cetic.br, a pesquisa TIC Educação apontou uma ampla adoção da IA no ambiente escolar brasileiro, com 70% dos alunos do Ensino Médio e 58% dos professores utilizando ferramentas de IA generativa em atividades escolares. O novo estudo aprofunda a compreensão desse fenômeno ao examinar as motivações, finalidades e estratégias de uso elaboradas por alunos e docentes diante da rápida e intensa incorporação dessa tecnologia em seus cotidianos.

 

ORIENTAÇÕES PARA O USO – O estudo detalha que o uso da Inteligência Artificial por estudantes do ensino médio transcende o ambiente escolar. Os alunos empregam a IA principalmente como um apoio pontual para otimizar o tempo em tarefas escolares, como resumos e pesquisas, mas também para tarefas cotidianas e até para suporte emocional. Entre as práticas relatadas estiveram o uso da IA como assistente pessoal para organizar a rotina e tirar dúvidas sobre saúde. De acordo com o levantamento, os discentes diferenciam o “uso pontual” (resumos, ideias) daquele que, na visão deles, “gera mais dependência” (pedir a resolução completa de uma tarefa) e desenvolveram estratégias para burlar a detecção, como pedir para a IA “humanizar o texto” ou inserir erros propositais.

 

Os professores, por sua vez, utilizam a tecnologia majoritariamente para reduzir a sobrecarga de trabalho, planejando aulas, criando atividades e preparando materiais didáticos, buscando agilidade e novas abordagens para o ensino.

 

Apesar dos benefícios, o estudo identifica que o uso da IA nas escolas ocorre sem diretrizes institucionais claras, caracterizado por um “pacto silencioso”. Muitos professores reconhecem que os alunos utilizam a tecnologia para redigir textos, resolver questões e preparar apresentações, mas não se sentem seguros para problematizar o uso, seja pela ausência de critérios de avaliação ou pelo reconhecimento da integração da ferramenta na rotina educacional.

 

FUNCIONAMENTO DA IA – Tanto alunos quanto professores demonstram compreensão limitada sobre o funcionamento da IA. O estudo revela dificuldades relacionadas à checagem da veracidade das informações e a incertezas éticas, especialmente sobre autoria de textos, questões quanto a privacidade e proteção de dados pessoais e limites de uso em avaliações.

 

Há, no entanto, interesse em aprender sobre a IA de forma crítica e orientada. Enquanto os alunos relatam que gostariam de aprender sobre o funcionamento dos algoritmos, riscos e responsabilidades, os professores manifestam o desejo de formação específica, mas apontam a falta de tempo, infraestrutura e apoio institucional como obstáculos.

 

As percepções sobre a IA diferem entre os grupos entrevistados. Os alunos conhecem diferentes ferramentas e buscam formas de utilização da tecnologia, percebendo-a como um apoio complementar que não substitui o professor. Os professores expressam preocupação com o uso da IA e a dificuldade em adaptar suas práticas pedagógicas. Eles alertam para o risco de a tecnologia diminuir a habilidade de análise crítica dos estudantes, reduzindo a capacidade intelectual e o esforço de aprendizagem.

 

FUTURO – Para alunos e professores a integração da IA na educação é inevitável, mas seu sucesso depende de diretrizes mais claras por parte dos sistemas de ensino. Entre os estudantes, há entusiasmo com o uso, mas apreensão sobre os impactos da tecnologia em seu futuro, incluindo impactos no mercado de trabalho e potencial desumanização das relações. Ao serem questionados sobre uma aplicação ideal da IA, muitos descreveram um “psicólogo ou um amigo”, indicando a busca por suporte emocional na tecnologia.

 

Para ambos os grupos, o futuro da educação com IA deve ser pautado pela formação crítica, pela mediação humana e por uma regulação responsável. “O estudo oferece subsídios para a formulação e implementação de políticas públicas que capacitem e apoiem escolas, professores e alunos a atribuir sentido pedagógico e ético ao uso da IA. O desafio é ajudar a construir diretrizes e práticas concretas que promovam inclusão e qualidade na educação”, finaliza Graziela.

 

Além dos grupos focais com professores e alunos do Ensino Médio, o estudo incluiu um levantamento com especialistas em IA na Educação – provenientes do poder público, sociedade civil, academia, mercado e gestão escolar – para mapear o estágio atual e apontar caminhos futuros para o uso de IA na educação, identificando riscos, oportunidades e barreiras ao desenvolvimento dessa agenda no Brasil.

 

O estudo “Inteligência Artificial na Educação: usos, oportunidades e riscos no cenário brasileiro” pode ser acessado no link.

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