Risco de contraparte redesenha o mercado de energia e commodities
Heloy Rudge
Existe atualmente uma pergunta que passou a anteceder qualquer grande negociação. Ela não é “quanto custa?”, mas sim, “quem está do outro lado da mesa?”
Durante décadas, os mercados de energia, açúcar e diversas outras commodities foram guiados por preço. Encontrar a cotação mais agressiva era o sinônimo universal de um bom negócio, mas hoje essa lógica não funciona mais. Estamos diante de uma das transformações estruturais mais profundas dos mercados corporativos nos últimos anos: o preço continua fundamental nas negociações, mas deixou de ser suficiente nas avaliações.
A realidade impôs uma nova métrica e os últimos meses provaram que um contrato barato pode se tornar o ativo mais caro do balanço se a contraparte não tiver fôlego para honrá-lo no longo prazo.
Esse cenário não acontece por acaso, mas é o reflexo de mudanças no contexto do mercado livre de energia brasileiro, que atravessa um período de forte estresse financeiro. A combinação de alterações nos parâmetros utilizados nos modelos computacionais de preços, os desafios operacionais e financeiros trazidos pelo curtailment (corte de geração), as exposições às oscilações severas de preço durante as horas do dia e a crescente complexidade nas projeções de preço criaram o cenário ideal para uma seleção natural de negociadores.
Empresas que assumiram riscos incompatíveis com seu patrimônio colapsaram. O resultado foi uma sequência de recuperações judiciais e extrajudiciais, negociações frustradas e contratos sumariamente descumpridos.
Sabemos que quando o elo de uma cadeia rompe, o prejuízo se espalha. Diante disso, geradoras, comercializadoras e grandes consumidores precisaram recalibrar seus critérios. O conceito de análise de crédito deixou de ser uma mera formalidade burocrática do departamento financeiro e transformou-se em uma ferramenta de sobrevivência estratégica.
Para entender como essa dinâmica funciona na prática, basta olhar para a assimetria financeira dessas operações.
Imagine um comprador que fecha um contrato de energia por R$ 100/MWh, escolhendo um fornecedor apenas porque ele apresentava uma oferta R$ 2 mais barata que a de um concorrente de primeira linha.
Se, meses depois, essa contraparte falha na entrega e o mercado spot ou de reposição tenha disparado para R$ 150/MWh, aquela economia inicial é pulverizada instantaneamente. O desconto original de R$ 2 transforma-se em uma exposição real e imediata de R$ 50/MWh.
O custo de substituição de um contrato inadimplido é, quase sempre, dezenas de vezes maior do que o ganho obtido na mesa de negociação. No ambiente atual, agentes maduros preferem renunciar a alguns reais por megawatt-hora em troca de governança, previsibilidade e solidez institucional.
Essa busca por segurança jurídica e financeira não é exclusividade do setor elétrico, mas tem uma importância significativa para ele. A tendência dita o ritmo das operações mais sofisticadas de soft commodities e de crédito estruturado.
No mercado internacional de açúcar, o foco das mesas de trading expandiu-se para além do preço Free On Board (FOB) ou das condições logísticas de porto. Hoje, audita-se com rigor quem origina o produto, quem estrutura o financiamento, quem retém o risco de performance e qual a real capacidade financeira do ecossistema envolvido para garantir a entrega física da mercadoria em cenários de alta volatilidade global.
No mercado de crédito estruturado, o raciocínio é idêntico e o mercado já não remunera apenas a rentabilidade nominal do ativo, mas sim a qualidade da estrutura que o lastreia. Liquidez, governança e conformidade passaram a ter valor econômico passível de precificação.
Em comum, esses setores compartilham a mesma máxima de que contratos são pedaços de papel, com o valor real residindo na capacidade das partes de cumpri-los. Por isso, os processos de due diligence mudaram de patamar e começam no balanço patrimonial, avaliando nível de alavancagem, perfil dos acionistas e políticas de gestão de risco.
Nesse compasso, o mercado corporativo brasileiro amadureceu. Comprar energia, negociar açúcar ou estruturar operações de crédito deixou de ser uma decisão puramente comercial para se tornar uma decisão de alocação de confiança.
No novo ambiente competitivo, há uma bifurcação clara de empresas com balanços robustos, governança sólida e gestão disciplinada de riscos, que atrairão os melhores parceiros, terão acesso à liquidez e capturarão prêmios de eficiência. E aquelas que baseiam sua sobrevivência estritamente em margens espremidas e preços agressivos, sem o devido lastro, enfrentarão um isolamento comercial crescente.
A lição que fica para os próximos anos é definitiva. No xadrez dos grandes mercados, o preço sempre poderá ser negociado. A credibilidade que se mede pelo valor, não. E quando ela falta, a conta cobrada pelo mercado é implacável.
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Heloy Rudge é cofundador e diretor de Novos Negócios da Tria Trading.