Eletrônica e Informática

Síndrome de Burnout afeta número cada vez maior de trabalhadores brasileiros

Para Marcelo Liutti, headhunter e senior associate da Trend Recruitment – empresa especializada no recrutamento de profissionais nas áreas de vendas, marketing e trade marketing – um dos efeitos perversos da crise econômica brasileira e o seu séquito de demissões em massa é a chegada ao país da Síndrome de Bornout. Conhecida como a síndrome do esgotamento profissional, esse distúrbio ficou famoso depois do registro de inúmeros casos principalmente no Japão, onde a obsessão pela eficiência e produtividade chegou a levar muitos trabalhadores ao suicídio.

“No Brasil, a Síndrome de Bornout vem afetando especialmente aqueles trabalhadores que continuam nos quadros depois das ondas de demissões, tendo de assumir o trabalho dos que partiram, com uma sobrecarga de funções – o chamado ‘profissional polvo'”, diz Liutti. “Mas as consequências de sobrecarregar uma única pessoa com responsabilidades, prazos e resultados são prejuízos enormes para a saúde emocional, mental e física dela”.

A seguir, trechos da entrevista.

A origem do burnout no Brasil
É um fruto envenenado que nasceu com a crise econômica. Com a crise, as empresas realizaram inúmeras demissões. Quem continuou no quadro de funcionários teve de assumir o trabalho dos que partiram, gerando uma sobrecarga de funções. Esse funcionário passou a ser nomeado como “profissional polvo”, aquele que assume vários “braços” dentro do trabalho.
Mas as consequências de sobrecarregar uma única pessoa com muitas responsabilidades, prazos e resultados acabam sendo desastrosas para a saúde emocional, mental e física dela, que pode até desenvolver a Síndrome de Burnout, conhecida como a síndrome do esgotamento profissional. Esse distúrbio foi descrito pela primeira vez pelo médico e psicólogo alemão Herbert Freudenberger em 1974. O curioso é que Freudenberger, que nasceu em 1926 e morreu em 1999, diagnosticou a síndrome em si mesmo.

Ou seja, o burnout é um distúrbio que ocorre pelo esgotamento físico, mental e psíquico. A palavra no idioma inglês pode ser traduzida como “queimar por completo” e se refere ao desgaste emocional e físico que a pessoa sofre graças ao estado de tensão e estresse crônico desenvolvidos em consequência de um ambiente de trabalho sobrecarregado de tarefas e emocionalmente nocivo. Não deixa de ser uma espécie de doença profissional.

Sintomas
Entre os principais sintomas do burnout estão uma sensação de extrema exaustão, que não melhora com períodos de descanso, e uma completa despersonalização do indivíduo, que passa a ser indiferente a coisas que antes lhe davam prazer. Cansaço agudo, irritabilidade, dificuldade de concentração, distúrbio de sono, dores musculares, alteração de humor e de memória também podem ser percebidas. Em casos mais graves, o paciente pode ter excesso de sudorese, taquicardia, náuseas, hipertensão, falta de ar e enxaqueca. Muitas vezes é bastante recomendável que procure um médico.

Responsabilidade das empresas
Para a empresa combater esses fatores – que, obviamente, quase nunca surgem de modo proposital, mas como um subproduto de uma gestão também tolhida pelas dificuldades – o melhor antídoto é uma comunicação clara e transparente. Afinal, diante de tantas demissões, o profissional sobrevivente também vai ficar inseguro, com medo de ser igualmente demitido. Se este não for o caso, os gestores diretos precisam aliviar essa tensão, demonstrando o quanto aquele profissional é importante para a empresa.

De qualquer maneira, hoje, em um Brasil em crise, é preciso que tanto as empresas como os funcionários se adaptem à nova realidade. É preciso, acima de tudo, estabelecer um esforço conjunto entre os colaboradores, o departamento de recursos humanos e os gestores da empresa para evitar que o cenário se torne deletério. Todos nós sabemos que em cenários de crises é hora de fazer mais com menos, que é necessário haver colaboração para enfrentar o momento delicado da economia. Mas é preciso também que prevaleça o bom senso em todas as partes envolvidas, a fim de evitar problemas mais graves.

O papel do profissional
De outro lado, o profissional também precisa desenvolver sua inteligência emocional de maneira a aguentar a pressão, sem deixar que sua saúde seja comprometida – o que não é interessante para a empresa e muito menos para ele. Não existe uma fórmula mágica para isso, mas alguns procedimentos relativamente simples podem suavizar, para o profissional, os períodos de maior pressão e estresse.
A boa organização do trabalho, por exemplo, é fundamental. É imprescindível organizar a rotina, estabelecer agendas e definir prioridades junto à chefia, a fim que as tarefas sejam cumpridas por ordem de importância. Num ambiente desorganizado, tudo é urgente, quando na verdade, sabemos que não é bem assim.

Trabalho de equipe
Tanto para a empresa, como para os funcionários, é sempre recomendável desenvolver profissionalmente outras pessoas da equipe, para tirar o peso das costas de quem tem o papel mais referencial no dia a dia. Na verdade, hoje, em períodos de crise, é muito comum as empresas estimularem treinamentos e workshops conduzidos pelos próprios funcionários. É uma maneira de fazer circular o conhecimento e ainda desenvolver novas habilidades em equipe para reduzir a centralização das atividades.

É importante também automatizar o que for possível, tanto para ganhar tempo como para poupar esforços. Quando olhamos com atenção para todos os processos de uma empresa, sempre detectamos alguns padrões em determinadas tarefas. Já é meio caminho andado para automatizá-los, se eles ainda não o são.

Aprender a dizer não
Para o funcionário já muito sobrecarregado, é imprescindível que ele tenha coragem de aprender a dizer não. Essa necessidade pode aparecer quando, após sofrer várias mudanças e adaptações em sua rotina, o profissional continuar a se sentir pressionado. Talvez então seja a hora de estabelecer limites. Dizer não a um chefe – ou mesmo a um colega de bancada – pode ser um grande sim que dizemos a nós mesmos. Mas o ideal é que este “não” seja acompanhado de alguma contraproposta – por exemplo, apresentando eventuais soluções articuladas à demanda solicitada.

Também é muito importante estabelecer um tempo para cada tarefa. Mas, se mesmo assim for inevitável levar trabalho para casa, é igualmente fundamental estabelecer horários para isso: nada de passar o fim de semana ou feriado inteiro trabalhando. É preciso definir um tempo para cada atividade e se comprometer a cumprir o acordo que fizemos com nós mesmos.

É óbvio que, durante esse período de trabalho caseiro, é necessário estar bastante focado, a fim de aumentar a assertividade das tarefas. Depois, é esquecer e relaxar. Estar com a família e amigos, desenvolvendo atividades prazerosas com certeza também ajuda muito quem quer ser um profissional mais produtivo na hora em que estiver trabalhando. Afora isso, é preciso também cuidar da saúde. Já existem muitos estudos que comprovam que a prática de atividades físicas com frequência regular, por exemplo, auxilia no alívio das tensões e previne várias doenças.

Happy hours
Um ótimo exercício de relaxamento das tensões é a promoção de happy hours com a equipe, o desfrute de momentos de descontração com ela. Na verdade, os RHs de muitas empresas costumam desenvolver ações de integração, capazes de motivar e engajar as equipes a fim de que produzam mais e melhor, de forma integrada e cooperativa. No entanto, se essa iniciativa não partir da direção da empresa, os próprios funcionários podem propor e organizar esses momentos de descompressão.
Um ambiente saudável e amistoso certamente favorece a dedicação e foco nos resultados. Um almoço ou happy hour em clima tranquilo, onde se fale sobre assuntos que não seja trabalho, é importante. Celebrar as pequenas e as grandes conquistas da equipe também é fundamental, para fortalecer os laços e o senso de time.

Quando a situação é insustentável
Mas se mesmo depois de todas essas atitudes o funcionário sentir que a situação não está melhorando, é então preciso avaliar até que ponto o trabalho é tão importante na vida dele, a ponto de ter de sacrificar a sua própria saúde e a sua alegria de viver. É preciso então ponderar de que vale um salário para quem já não consegue mais ver sentido ou prazer na realização de seus propósitos pessoais e profissionais. Talvez seja a hora de partir para outra, e tentar recomeçar. (texto: Alberto Mawakdiye/foto: divulgação)

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