C&M e o PIX: lições para construir uma supply chain segura
Thiago N. Felippe
O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto. O ataque sofrido pela C&M Software no dia 30 de junho tem feito CISOs e CIOs reverem suas políticas de segurança em relação a seus fornecedores terceirizados de software e serviços. Nesta estratégia de violar sistemas bancários por meio da supply chain que sustenta grandes plataformas de pagamentos como o PIX, um funcionário da C&M Software, João Nazareno Roque, aceitou suborno para compartilhar suas senhas. Com isso, os criminosos conseguiram explorar brechas a partir de acessos legítimos, entrando em sistemas que sustentam a conexão entre diversos bancos menores e a plataforma do Banco Central. Em vez de atacar as próprias instituições financeiras, os criminosos buscaram os elos mais fracos na supply chain de software e serviços.
Num mundo baseado em aplicações modernas – sistemas extremamente distribuídos e conectados entre si por APIs (Application Programming Interfaces) – o invasor pode utilizar vários vetores de penetração. O prejuízo divulgado no início de julho é de R$ 541 milhões, mas estimativas do Banco Central indicam que as perdas podem chegar a R$ 800 milhões.
Há várias lições a serem tiradas deste episódio.
É mais importante do que nunca realizar um risk assessment do ambiente do parceiro de supply chain. A meta é medir a maturidade em cybersecurity deste provedor de serviços, detectando, por exemplo, seus pontos cegos (shadow IT), se o desenvolvimento das aplicações desta empresa é baseado nas melhores práticas de segurança, como é a resposta a incidentes, quão atualizadas são as tecnologias usadas para, por exemplo, enfrentar ameaças baseadas em AI.
O incidente revelou um novo patamar de sofisticação nas ameaças à supply chain digital. Há indícios de que o ataque foi resultado de meses de planejamento, oferecendo subornos em troca de acesso aos ativos digitais. Trata-se de uma evolução clara do modus operandi de fraudes financeiras. O alvo não é apenas uma vulnerabilidade técnica, mas uma fragilidade humana e processual orquestrada com precisão e intenção de escala.
ISO 37001 E ISO 27001- O uso de engenharia social e suborno pelos criminosos coloca sob o foco a importância dos integrantes da supply chain contarem com uma cultura de tolerância zero com crimes digitais e com a corrupção.
Os parceiros que compreendem essa verdade destacam-se por contar com o selo ISO 37001. No nosso caso, entendemos o alinhamento a essa norma como um complemento natural do selo ISO 27001, baseado em processos que preservam a integridade dos dados corporativos, dos clientes e de todo o ecossistema de supply chain. Nas duas ISOs, os processos têm de ser constantemente analisados e reescritos, de modo a retratar uma empresa dinâmica.
SENHAS E IDENTIDADES – O integrante da supply chain precisa, também, utilizar tecnologias avançadas de proteção de dados. O incidente da C&M talvez pudesse ter sido evitado se a empresa contasse, por exemplo, com uma plataforma que ofereça controle granular sobre as senhas. É recomendável que a gestão de senhas seja feito de forma alinhada ao PCI DSS 4.0 e outras normas que exigem o uso de senhas fortes, incluindo as diretrizes NIST 800-63B, com as melhores práticas em relação à expiração programada de senhas. Toda a política de conformidade da empresa é fortalecida com o uso de soluções de gerenciamento de senhas com validações em camadas que antecipam e resolvem problemas sem, no entanto, afetar a produtividade do usuário.
ZERO TRUST E DIREITOS DE ACESSO – Outra estratégia pode ser o alinhamento à disciplina ITDR (Identity Threat Detection and Response – detecção e resposta a ameaças contra identidades). Esse modelo foi criado pelo Gartner e visa proteger a infraestrutura de identidade. O ITDR implementa mecanismos de detecção, investiga alterações de postura e atividades suspeitas, e responde a ataques para restaurar a integridade da infraestrutura de identidade.
A partir de uma abordagem Zero Trust e direitos mínimos de acesso, o controle fica mais granular e qualquer comportamento fora do padrão gera alertas. Essa disciplina pode ser implementada com auxílio de soluções ITDR que realizam essas ações de forma automatizada, em ambiente distribuído, na nuvem.
MONITORAMENTO E PREVENÇÃO – O episódio reforça, também, a necessidade de monitoramento contínuo do ambiente interno, com foco especial em comportamentos anômalos de usuários com acesso privilegiado. É fundamental que as organizações adotem práticas que vão além da coleta de logs ou da geração de relatórios, e passem a monitorar ativamente e em tempo real os desvios de comportamento.
A identificação precoce de um insider não depende apenas de uma violação explícita, mas da capacidade de detectar quebras sutis de padrão – acessos fora de horário, alterações em configurações críticas, movimentações incomuns em arquivos sensíveis, ou atividades que não fazem sentido para o perfil daquele usuário.
O problema é que, em muitos casos, as organizações até possuem ferramentas capazes de trazer essas informações, mas só abrem os relatórios depois que o estrago já foi feito. Monitoramento sem ação é apenas acumular histórico. A eficácia está na visibilidade ativa e na tomada de decisão em tempo hábil, com processos de resposta bem definidos e inteligência aplicada à rotina de auditoria.
Nesse contexto, prevenir a cooptação de insiders – como ocorreu no caso da C&M – exige mais do que tecnologia: requer disciplina operacional, integração com equipes de segurança e governança, e uma cultura que valorize a vigilância contínua, mesmo quando tudo parece “normal”.
CONEXÃO UMBILICAL – O ataque sofrido pela C&M, e seu impacto sobre organizações financeiras, é um retrato do momento atual da economia digital. A computação em nuvem e a disseminação de aplicações modernas – muitas delas baseadas em IA – fazem com que o dado trafegue todo tempo entre plataformas diferentes rodando em empresas independentes. Nesta realidade, cabe à organização usuária ter uma visão aguda sobre a cultura e a maturidade em cybersecurity de sua supply chain. O parceiro, por seu lado, é chamado a seguir avançando em sua resiliência cibernética, consciente de sua responsabilidade com a sustentação dos negócios de seu cliente. A conexão entre esses dois polos é umbilical, e precisa evoluir sem cessar.
______________________________________
Thiago N. Felippe é CEO da Aiqon.