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Como a indústria de tecnologia pode participar da luta contra o racismo

 

 

Gustavo Nery (*)

 

 

Equidade e diversidade são temas importantes que permeiam as agendas corporativas, com uma cobrança cada vez maior por parte da sociedade civil de uma mudança ativa no engajamento das empresas nesse sentido.

 

Episódios como o de George Floyd, nos EUA, e outros recentes de violência policial contra negros no Brasil, como o caso do menino João Pedro e da comerciante (cujo nome foi preservado) pisoteada por um agente da polícia federal paulista, refletem a violência histórica contra negros que agora, com uma exposição audiovisual maior, geram enorme comoção e dão mais força ao debate, convocando a sociedade à reflexão. Nessa toada, diversos movimentos tomaram as ruas e redes sociais no mundo todo.

 

Porém, um posicionamento efetivo contra o racismo estrutural há muito existente vai muito além de manifestações públicas ocasionais, como a adesão ao movimento #vidasnegrasimportam ou #blacklivesmatter. Como podem as empresas participar ativamente da construção de processos de diversidade e inclusão, de modo que as transformações sejam culturais, e estruturais, no ambiente corporativo?

 

Como se sabe, o racismo se manifesta de diversas formas, e uma delas é a linguagem. Na indústria de tecnologia, isso se reflete também nas linguagens e ferramentas de desenvolvimento, espinha dorsal das startups.

 

A naturalização do racismo em nosso cotidiano permite que, ainda hoje, termos como “master” e “slave” para se referir, por exemplo, a um servidor principal e secundário, anda sejam usados. Outro termo bastante utilizado, e não só no em tecnologia, é “blacklist” e “whitelist”.

 

Há quem defenda que são termos utilizados há muito tempo e que a conotação está no olhar de quem interpreta e não de quem utiliza, ou que nem sempre os termos se originaram em função da questão racial, razão pela qual não haveria porque realizar essa revisão. Porém, o uso contínuo desses termos perpetua e legitima estereótipos raciais, daí a importância de repensá-los. Há, certamente, opções melhores de palavras.

 

Na Yuca, a preocupação em difundir essa cultura inclusiva e a consciência sobre o quanto temos intrínseco o racismo em nosso cotidiano, levou para debate uma proposta de revisão de termos utilizados no nosso código, o que desencadeou diversas mudanças – inclusive em outras áreas da empresa.

 

Para que uma transformação dessas ocorra, é verdade, a existência de certo grau de consciência em relação ao tema pode ajudar na aceitação, implementação e adaptação das novas propostas (e, no caso, novos termos).

 

Foi o que aconteceu na Yuca que, anteriormente nesse ano, já havia passado pela experiência de rever a linguagem utilizada no dia a dia. É bastante comum nas cerimônias ágeis o uso do termo “backlog grooming” para referir-se a reuniões de refinamento, em que se prepara e discute os requisitos a serem implementados. Ocorre que o termo “grooming” também carrega conotação ofensiva e, portanto, inadequada, na medida em que tem um uso relacionado com aliciamento de menores.

 

Ao tomar conhecimento do fato, assim como outras empresas de tecnologia, a Yuca também retirou do uso a palavra, passando a chamar tais reuniões apenas de “refinamento”.

 

Essa vigilância em relação à linguagem, já nesse momento anterior, veio a motivar nova revisão quando se inflamou o debate do racismo estrutural e suas manifestações mais sutis.

 

A proposta de revisão do código da empresa, que levou cerca de um mês para ser implementada, teve o objetivo de contribuir na difusão de uma cultura mais inclusiva e reverter, dentro do ambiente de trabalho, o quadro atual existente de naturalização do racismo – seja na linguagem, seja em outras posturas já incorporadas no comportamento da grande maioria dos cidadãos.

 

Os termos mencionados (master/slave e blacklist/whitelist) foram substituídos por outros, livres de qualquer conotação discriminatória. Agora se utilizam os termos “main” e “secundary” e “deny list” ou “block list”.

 

Além das mudanças concretas realizadas no código, o processo todo foi debatido entre todas as áreas, para que se compartilhassem os resultados e aprendizados de cada um com as medidas implementadas.

 

É nesse espaço de troca e diálogo que novas reflexões e questionamentos podem surgir, e consequentemente, impulsionar outras transformações que sejam necessárias, para que a diversidade e equidade sejam efetivamente presentes e ultrapassem o mero discurso.

 

Na Yuca, o debate também gerou revisões em outras áreas. O time de arquitetura, por exemplo, não utiliza a expressão “criado-mudo” para referir-se ao móvel de cabeceira. Originalmente, esse termo fazia alusão aos antigos criados que ficavam calados servindo aos seus patrões, em seus quartos, enquanto eles dormiam.

 

O que se pode observar é que, por mais que pareçam ser mudanças bastante simples, em realidade, longe de ser pontuais e isoladas, elas levam cada indivíduo à tomada de consciência e à reflexão de um tema permanente na nossa sociedade e que exige de todos iniciativa e atitudes afirmativas e constantes.

 

É fundamental que cada um, no âmbito pessoal ou profissional, esteja atento e dedicado em um movimento vigilante e contínuo em relação à pauta racial, assim como à discriminação de outras naturezas. Somente abrindo-se ao questionamento e à possibilidade de mudar, quantas vezes for preciso, é que se pode verdadeiramente combater o preconceito excludente do sistema atual.

 

Como comentado inicialmente, sabemos que o racismo estrutural se ramifica em múltiplas manifestações. A linguagem e a maneira como nos comunicamos em diferentes plataformas é uma delas, convocando-nos a rever o que é preciso nessa esfera. No entanto, medidas como essa devem se conjugar a outras – os desafios são vários e as empresas também possuem a responsabilidade de somar-se a essa luta.

 

As empresas, especialmente as startups, sempre conectadas à tecnologia mais recente e sempre se atualizando para atender às constantes mudanças da sociedade, não podem ignorar esse tipo de debate que, longe de ser atual, ainda é uma questão em pauta que merece relevância e apresenta desafios à sociedade.

É parte desse movimento que deseja a Yuca pertencer: aberta a seguir questionando e modificando sua linguagem e quaisquer outras manifestações discriminatórias ainda presentes e naturalizadas, assim como com a escuta ativa para receber sugestões e observações de quem tem algo a ensinar e agregar nesse sentido.

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(*) O autor é head of Software Engineering da Yuca.

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