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Como as cidades estão transformando a segurança pública

Kalyn Sims

As cidades estão enfrentando múltiplos desafios para a segurança pública. Problemas tradicionais, como a criminalidade, estão aumentando, mas novos obstáculos que eram menos prevalentes ou mesmo inexistentes têm aumentado nos últimos anos. Muitas cidades e os seus órgãos de segurança pública estão lidando com a diminuição da confiança pública, enquanto as expectativas da população estão mudando, incluindo a demanda por novos meios de comunicação que as permitam interagir com os serviços de emergência. Até mesmo as mudanças climáticas estão atrapalhando o planejamento e a resposta às emergências. Prova disso, são os dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM) que revelam que os desastres climáticos e relacionados ao clima aumentaram cinco vezes nos últimos 50 anos. Esses e outros fatores estão levando as cidades a transformarem as suas operações de segurança pública para se tornarem mais eficazes e resilientes às mudanças.

Por exemplo, de acordo com a National Emergency Number Association (Nena), mais de 80% das 240 milhões de chamadas de emergência anuais para o 911 são feitas de dispositivos sem fio. Isso é um problema quando a maioria dos centros 911 dos EUA está operando com tecnologia de décadas, originalmente projetada para funcionar com linhas fixas. Os centros de comunicações de emergência podem identificar chamadas de linha fixa, mas exigem atualizações de tecnologia para detectar a localização precisa de uma ligação originada de um dispositivo móvel. E aqui no Brasil, no caso do 190, não é diferente.

UM NOVO SISTEMA – Tudo isso faz parte de um movimento mais amplo denominado Next Generation 911 (NG911) ou, serviços de emergência de próxima geração, que está substituindo a infraestrutura analógica 911 por um sistema baseado em protocolo de internet (IP), o qual também pode ser uma realidade no Brasil. O NG911 ajuda a criar um sistema de resposta a emergências mais resiliente, com capacidade de gerenciar melhor o volume de chamadas e transferências, além aceitar outros formatos de dados enviados pelo público como fotos e vídeos.

Considere a colaboração entre organizações, por exemplo, na qual um grande incêndio requer a assistência de várias unidades de Corpos de Bombeiros, a polícia, empresas de serviços públicos entre outros órgãos. Embora trabalhem juntos há muito tempo – acordos de ajuda mútua são comuns entre serviços de emergência – a colaboração eficiente, baseada em dados e inteligência compartilhados, é outra questão. Esse tipo de melhoria é fundamental para a evolução da segurança pública.

Em vista disso, a prevalência de centros integrados está aumentando. Nos EUA, a tendência crescente são os centros de operações e inteligência em tempo real que funcionam 24 horas por dia,7 dias por semana e podem abrigar membros de um ou vários órgãos,  dependendo da situação. Imagine um evento de grande escala, como um festival de música, um desastre natural como um furacão ou até mesmo uma onda de crimes violentos em uma cidade. Estes centros centralizam tecnologias, dados e equipes, fornecendo às autoridades policiais e a outras agências uma visão geral de uma situação quando ela está acontecendo. Tudo isso permite uma tomada de decisão mais rápida e informada para melhorar a segurança de policiais, bombeiros, habitantes e de toda a comunidade.

A segurança pública não tem a ver apenas com a aplicação da lei e resposta a emergências. Também inclui medidas proativas que as cidades podem adotar para evitar problemas antes que eles aconteçam. Como o caso da Universidade do Tennessee, em Chattanooga, que iniciou um projeto de pesquisa para entender e prever melhor os acidentes de trânsito. Aproveitando dados multissensores e históricos, o Centro de Informática Urbana e Progresso da universidade desenvolveu um modelo baseado em IA que pode ser usado para prever acidentes e melhorar o planejamento e a implantação de recursos. Os dados são compartilhados em uma plataforma de colaboração baseada em mapas, onde organizações em toda a cidade – de serviços de emergência ao departamento de transporte – podem acessar o modelo, ver os resultados e planejar com antecedência.

MUDANÇA DE MENTALIDADE – No entanto, por mais impressionantes que sejam esses projetos, a tecnologia não é suficiente para torná-los bem-sucedidos. Muitos projetos saem dos trilhos por outras razões que não a tecnologia. A transformação é, em última análise, impulsionada pela vontade de fazer as coisas de maneira diferente. E isso, geralmente, requer uma mudança de mentalidade de todos os que são afetados.

As cidades que levam a sério a modernização de seus esforços de segurança pública precisam da adesão daqueles que podem impactar negativamente o sucesso de um projeto de transformação. Isso inclui funcionários eleitos com responsabilidade orçamentária, funcionários de órgãos encarregados de usar ferramentas novas – e possivelmente desconhecidas – bem como do público, o qual espera segurança e retorno de seus investimentos como contribuintes. Para maximizar o apoio e construir a confiança entre todas as partes envolvidas, os órgãos de segurança pública precisam estabelecer metas claras, comunicar os planos pretendidos desde o início, solicitar feedback e garantir que os mais impactados estejam equipados com as informações de que precisam, o que pode incluir desde treinamento de pessoal até portais públicos de informação. Ao lidar efetivamente com questões não tecnológicas, os órgãos podem fazer com que projetos orientados à inovação prosperem.

Líderes e comunidades precisam reconhecer que o mundo está mudando, e a segurança e os serviços públicos também. Para atender efetivamente aos cidadãos, as cidades estão adaptando seus processos, tecnologias e mentalidades para acompanharem as necessidades em constante evolução. A mudança não é fácil, mas para a eficácia da segurança pública ela é necessária.

Kalyn Sims é diretora de Tecnologia da divisão de Segurança, Infraestrutura e Geoespacial da Hexagon.

 

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