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Eficiência do caça North American P-51 foi decisiva na Segunda Guerra

Conta a História que o reichmarschall  Hermann Goering,o comandante supremo da Luftwaffe, a força aérea alemã, e um dos chefões do governo nazista, disse essa desalentada frase, quando percebeu, naquele dia de 1944, que os aviões bombardeiros aliados daquela vez chegaram a Berlim com a escolta de aviões de caça:

“Caros, a guerra está perdida.”

Conhecido pelo estilo de vida luxuoso (fruto de desavergonhada corrupção) e por suas atitudes de bufão, Goering não iria deixar, é claro, escapar a oportunidade de cunhar outra de suas frases de efeito, mesmo que desferida contra si mesmo – afinal, caberia a ele evitar que a Alemanha perdesse a guerra por causa de uns meros aviões.

Mas, nesse caso, Goering estava coberto de razão.

Aqueles aviões de escolta, de fato, contribuiriam decisivamente para que as potências aliadas, representadas por Estados Unidos, União Soviética e Império Britânico, transformassem em quimera o esforço alemão de continuar com a guerra.

Esse avião era o americano Mustang P-51, avião de caça, bombardeio de solo e reconhecimento fotográfico produzido pela fabricante North American Aviation (NAA), e que entrou para os anais não só como um dos melhores de toda a história da aviação, mas também como um dos mais eficazes nas tarefas para as quais era designado.

Como todos os aviões militares, o Mustang foi concebido, projetado e construído para atender demandas específicas. No caso, em resposta a uma especificação da Grã-Bretanha traçada logo no início da guerra, no final de 1939, para um avião monoposto com motor a pistão, veloz, manobrável e de longo alcance, e que em diferentes versões pudesse servir como avião de caça ou ataque ao solo, escolta e reconhecimento, sendo, para isso, capaz de abrigar bom volume de armamentos ou câmeras fotográficas, além de um tanque de combustível extra.

O protótipo NA-73X voou pela primeira vez em 26 de outubro de 1940, nem um ano depois de o pedido inglês ter sido aceito e o projeto começar a ser desenvolvido pela North American. Mas o desempenho da aeronave original só agradou em parte.

Embora cumprisse várias das especificações determinadas, esse primeiro Mustang não era capaz de atuar bem em altitudes maiores, devido às características de seu motor, o pesadão, embora para lá de resistente, Allison V-1710.

Este não era, entretanto, um problema lá muito sério, pois tanto os Estados Unidos como a Grã-Bretanha já produziam motores para todas as altitudes passíveis de ser alcançadas na época – do voo rente ao solo a altitudes acima dos 10 mil metros.

Depois de encarniçadas reuniões técnicas e financeiras, os estrategas anglo-americanos decidiram-se pelo motor Packard V-1650-7, uma versão do Rolls-Royce Merlin produzida sob a licença da célebre montadora britânica.

O Rolls-Royce Merlin já equipava, por exemplo, os dois principais aviões de caça ingleses, o Spitfire e o Hurricane, que detonariam a Luftwaffe na chamada Batalha da Grã-Bretanha, em meados de1940.

A derrota nesta batalha aérea foi tão acachapante que ela obrigou Hitler a desistir da invasão da Inglaterra, e voltar os olhos para a URSS, que mandaria invadir e ocupar no ano seguinte. Projeto cujo fracasso decretaria, em 1943/44, o fim prático dos seus sonhos de dominar a Europa, e de construir o seu aloprado Reich dos Mil Anos, enterrado definitivamente em maio de 1945 com a Queda de Berlim.

Assim, a escolha do motor Rolls-Royce Merlin para o Mustang foi certamente bastante influenciada pelo sucesso do Spitfire e do Hurricane na Batalha da Grã-Bretanha. E se mostraria, igualmente, um acerto tremendo para o projeto americano.

De fato, o Mustang equipado com o motor Rolls-Royce/Packard demonstrou ser também de uma eficiência a toda prova, e logo o avião começaria a ser produzido em série, voando operacionalmente, no começo, com a Royal Air Force (RAF) britânica em missões de reconhecimento aéreo e ataque ao solo. Com um sucesso estonteante.

Mas o teste de fogo do Mustang ainda estava por vir.

A partir do final de 1942 e começo de 1943, o comando aliado ocidental decidiu minar o esforço de guerra alemão enviando milhares de bombardeiros pesados – como o Boeing B-17 Supresfortress (ou Fortaleza Voadora), representando os EUA, e o Avro Lancaster, o Reino Unido -, para atacar fábricas, estradas, rodovias, represas e, quando possível, instalações militares dentro do território alemão.

O primeiro grande raide dos aliados, com cerca de 1 mil aviões, foi sobre a cidade de Colônia. O ataque acarretou perdas materiais e de vidas pavorosas para os alemães, mas cerca de uma centena de aviões foi derrubada pelos aviões de caça ou pelo fogo antiaéreo germânico.

Os ataques, de qualquer forma, prosseguiram, mas com eficiência cada vez menor. Os bombardeiros, conforme penetravam com mais profundidade em território alemão, raramente conseguiam acertar os alvos em sua plenitude, com boa parte das bombas caindo principalmente sobre a população civil.

As perdas de aviões e tripulações também começaram a se tornar proibitivas. No correr de 1943, a taxa de perdas de B-17s, encarregados principalmente dos ataques diurnos, chegou a até 25% em algumas missões – 60 de 291 B-17s foram perdidos em combate no segundo ataque contra Schweinfurt, por exemplo.

Parecia que estava para cair sobre os aliados uma derrota tão humilhante quanto foi para os alemães a Batalha da Grã-Bretanha.

A solução, porém, estava à mão, e era o uso do Mustang. De fato, antes da introdução do P-51, à época já totalmente operacional, os bombardeiros pesados aliados dispunham da escolta dos ferozes caças americanos P-47 Thunderbolt apenas em parte do caminho até o alvo, devido ao curto alcance daqueles aviões.

A Luftwaffe rapidamente aprendeu a atacar os bombardeiros fora do alcance da escolta, causando perdas crescentemente severas.

Mas o Mustang, com seu tanque extra e grande poder de fogo, tinha a capacidade de acompanhar os bombardeiros na ida e na volta das missões, penetrando profundamente no território inimigo no papel de avião de escolta ou mesmo atacando diretamente os aviões de caças alemães no seu próprio país.

A escolta de longo alcance proporcionada pelo Mustang resultaria, assim, na degradação da Luftwaffe como uma força de interceptação eficaz já entre fevereiro e junho de 1944, quando o B-17 e o Lancaster tornaram-se estrategicamente mais potentes, iniciando o que acabaria por se tornar uma autêntica devastação do parque industrial, infraestrutura e de milhares de cidades grandes e pequenas da Alemanha.

O Mustang não foi utilizado apenas nos céus alemães. Ele participou também de várias batalhas nos desertos do norte da África e na Itália, e foi igualmente decisivo na Guerra do Pacífico, contra o Japão.

A partir do segundo semestre de 1944, o P-51 foi utilizado no Extremo Oriente com o mesmo fim: ataques aos aviões de caça nipónicos em território inimigo e, principalmente a partir de fevereiro de 1945, também como caça de escolta aos bombardeiros americanos, tendo como base principal o aeródromo de Iwo Jima.

Diga-se que o último contra-ataque japonês nesta batalha sangrenta foi um ataque noturno justamente contra o acampamento dos pilotos de P-51.

Longevo, o Mustang ainda participaria da Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953, e equiparia forças aéreas do mundo inteiro – como a da Bolívia – até 20 ou 30 anos depois. E ainda hoje alguns exemplares sobreviventes são usados como “aviões esportivos” em corridas aéreas, principalmente nos EUA.

Mas é preciso dizer que, se o Mustang foi um ótimo avião em sua categoria, talvez mesmo o melhor, tinha também lá os seus defeitos, alguns deles muito sérios.

Os principais problemas eram a fragilidade do sistema de refrigeração líquida ante o fogo antiaéreo de pequeno calibre, e a instabilidade de voo para manobrar quando armado com bombas ou foguetes.

Isso fazia com que, para ataques terrestres, os aliados ocidentais, tanto na Europa quanto no Oriente, privilegiassem a utilização de outros aviões para este fim, como o P-47 Thunderbolt, da Republic, que usava motor radial com refrigeração a ar.

Para os apreciadores, o Mustang também não era nenhum primor de beleza, embora muitos afirmassem e continuem a afirmar o contrário. Para fazer uma piada, o P-51 Mustang, na verdade, não era nenhum Mustang – o incomparavelmente belo e insinuante muscle car americano que acabou emprestando seu nome.

As suas asas retangulares e o seu jeito atarracado de teco-teco faziam dele uma espécie de primo pobre do magnífico Spitfire, do Zero japonês e do FockeWulf 190 alemão – aviões de caça cujos designs arrojados e ambição estética entraram para a História da aviação.

De qualquer forma, foi este primo pobre o que mais fez estragos no inimigo. (texto: Alberto Mawakdiye/foto: Divulgação/National Museum of the US Air Force)

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