Metal Mecânica

Tecnologias criadas na Segunda Guerra são utilizadas no mundo todo

 

A Segunda Guerra Mundial (1939-45) foi pródiga na invenção ou no desenvolvimento de artefatos revolucionários, não apenas para aplicação direta no campo militar, mas também para servirem de apoio ao esforço de guerra. Praticamente todos eles acabariam adotados, e aperfeiçoados, após o mortífero conflito, que ceifou mais de 50 milhões de vidas ao redor do planeta.

 

Na área estritamente militar, foi durante a Segunda Guerra, por exemplo, que surgiu o radar, empregado inicialmente pelos britânicos e depois disseminado entre todos os contendores.

 

Os primeiros aviões a jato também apareceram da metade para o final do conflito, no formato de aviões de caça, sendo o alemão Me-262 e o britânico Gloster Meteor os únicos a terem, de fato, entrado em batalha.

 

Se coube aos soviéticos desenvolverem o katiucha, o avô dos mísseis táticos utilizados hoje em profusão nas batalhas terrestres, os foguetes V-1 e V-2 alemães, que devastaram cidades e instalações militares e industriais inglesas a partir de 1944, foram os antepassados dos mísseis balísticos intercontinentais e dos foguetes que levam homens e satélites ao espaço.

 

Isso, sem falar da bomba atômica, a mais mortal e sinistra arma já desenvolvida, que deu origem a toda a uma família de explosivos tão potentes, como a bomba de hidrogênio, que poderiam dar fim ao próprio planeta. Mas, embora polêmica, a energia nuclear também é usada hoje para geração de eletricidade em países com déficit de recursos naturais.

 

RETAGUARDA CIENTÍFICA – Diga-se que este intercâmbio entre as áreas científica e militar nem de longe começou com a Segunda Guerra. De fato, desde os seus primórdios, a guerra jamais se limitou meramente a confrontos entre soldados inimigos. Já na Antiguidade, invenções como a catapulta, o fogo grego e a galera foram resultado do esforço dos cientistas da época para dotar os militares de armamentos e sistemas logísticos que lhes dessem vantagem nas batalhas.

 

O bronze tornou-se uma liga metálica essencial na área de metalurgia devido à demanda por canhões mais eficientes, e a indústria só chegou até o aço como o conhecemos hoje depois de séculos de experiências com ligas à base de ferro para a fabricação de espadas.

 

Mas a Segunda Guerra talvez tenha sido a que mais contribuições tenha deixado para a vida civil. Sendo que pelo menos uma inovação teve o poder de até configurar a própria contemporaneidade: o computador.

 

De fato, durante a guerra, para combater os estragos provocados pela máquina Enigma, usada pelos alemães para criptografar mensagens secretas e enviá-las para submarinos e esquadrões aeronáuticos, britânicos e americanos investiram pesadamente no desenvolvimento de computadores.

 

A Inglaterra criou o Colossus, tido como o computador eletrônico pioneiro, em 1943, enquanto do outro lado do Oceano Atlântico os Estados Unidos desenvolveram o Harvard Mark I, um computador eletromecânico que seria empregado no Projeto Manhattan, o da bomba atômica, e logo depois da guerra daria origem ao Eniac, que foi de fato o primeiro computador moderno.

 

HELICÓPTERO – As contribuições não param por aí. Se os primeiros projetos de helicóptero remontam à Idade Média, este aparelho só saiu mesmo do papel em 1936, com a introdução do Focke-WulfFw61, da Alemanha, o primeiro helicóptero operacional da História, mas experimental e não muito eficiente.

 

Porém, já em 1940, no começo da guerra, surgiu também na Alemanha o FlettnerFl 282 (foto/wikipedia), o primeiro helicóptero, inclusive, a ser produzido em série. Era ainda um aparelho um tanto rudimentar, com o que ele foi usado mais para fins de observação, transporte e evacuação médica. Ao contrário de hoje, quando o helicóptero é o único tipo de aeronave realmente multiuso.

 

Outro artefato de cunho estritamente militar, mas que acabou absorvido pela esfera civil, foi o dispositivo de visão noturna – também criado na Alemanha. OZielgerät 1229 era, na verdade, uma simples lâmpada que emitia luz infravermelha, invisível a olho nu, mas clara como a luz do sol para quem olhasse pela mira especial.

 

O dispositivo era pesado – mais de 2 kg – e funcionava acoplado a fuzis de assalto, tendo por isso recebido o óbvio apelido de “Vampir” dos soldados alemães. Descendentes sofisticados deste “vampiro” são hoje bastante utilizados na construção civil, em aeroportos e pelos policiais e bombeiros.

 

ANTIBIÓTICOS – A medicina também saiu ganhando com a Segunda Guerra. Basta citar a disseminação da penicilina, a mãe dos antibióticos. Embora tenha sido descoberta em 1928 pelo cientista escocês Alexander Fleming, foi em 1941 que os médicos descobriram o potencial da penicilina para tratar as feridas dos soldados. A partir, foi um passo para a realização de experimentos para descobrir os limites e vantagens dos antibióticos.

 

Com razão. A eficácia do remédio, e a sua aceitação, foi tão grande que cerca de 400 milhões de unidades de antibióticos foram produzidas em 1943. Já em 1945, seriam 650 bilhões de unidades por mês.

 

COTIDIANO – Houve também muitas inovações mais prosaicas que as pessoas não fazem ideia de que nasceram no esforço da grande guerra de 1939.

 

Uma delas foi a fita adesiva, aliás, uma das poucas autênticas invenções daquela guerra. A fita foi criada em 1943, por uma americana chamada Vesta Stoudt. Ela trabalhava em uma fábricade munições no estado de Illinois, inspecionando o acondicionamento de munições.

 

Atilada, Stoudtfoi percebendo o quanto as caixas de munições eram trabalhosas para serem abertas, devido à vedação, e o quanto isso poderia colocar os soldados em risco, nos campos de batalha. Então, ela, que tinha um filho soldado, deu tratos à bola e criou a fita adesiva, que vedava as caixas e ao mesmo tempo deixava que elas se abrissem com facilidade.

 

 

Uma ideia simples, mas absolutamente revolucionária, com, talvez, milhões de aplicações no mundo de hoje.

 

As meias-calças femininas também são daquele período. Elas são um fruto direto do nylon, lançado em 1938 e que serviu inicialmente para a indústria de escovas de dentes.

 

Mas a entrada dos Estados Unidos na guerra fez a demanda do nylon explodir, a ponto de só ser permitido que essa fibra sintética fosse usada na fabricação de objetos do universo militar, como paraquedas, tanques de combustível de aeronaves e redes de descanso. A raridade tornou o material um sonho de consumo. E as meias-calças inundariam depois o mercado.

 

Já a caneta esferográfica é uma invenção húngara. Ao perceber que a tinta utilizada em jornais secava rapidamente, deixando o papel livre de borrões, o inventor Laszló Bíró imaginou como poderia ser útil uma caneta com o mesmo tipo de produto em seu interior.

 

A invenção só se popularizou com a eclosão da Segunda Guerra, quando a aeronáutica inglesa necessitava de canetas que não vazassem tinta durante os combates aéreos. O bom desempenho trouxe sucesso para o inventor e substituiu as tradicionais canetas-tinteiro.

 

CONFEITOS – Até a disseminação dos hoje prosaicos chocolatinhos confeitados se deve à Segunda Guerra. Eles surgiram na década de 1930, durante a Guerra Civil Espanhola, pelas mãos do empresário americano Forrest Mars, que os criou para impedir que o chocolate derretesse e os soldados pudessem consumi-lo nos campos de batalha, para repor as energias.

 

O uso, porém, foi limitado. Em 1941, no entanto, durante a Segunda Guerra, essesconfeitos de chocolate foram incluídos na ração diária decampo de batalha. Depois da guerra, conquistaram o mundo.

 

Até objetos chegados ao supérfluo foram desenvolvidos durante a Segunda Guerra, como as molas Slinky, criadas acidentalmente pelo engenheiro naval americano Richard James.

 

Ele queria desenvolver molas para estabilizar os equipamentos sensíveis a bordo dos navios em viagens agitadas. Quando uma delas caiu no chão, James notou que, em vez de rolar, o objeto se endireitou e ficou de pé. Ele percebeu que aquilo poderia ser um ótimo brinquedo – e não é que acertou?

E a lista vai mais além. Poderiam ser incluídos nela o aerossol, a metanfetamina, até o refrigerante Fanta. Que, no começo, aliás, era de maçã. (Alberto Mawakdiye)

 

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