Eletrônica e Informática

Indústria automobilística global pode perder US$ 60,6 bilhões em receita pela escassez de semicondutores

 

A escassez de semicondutores atinge a indústria automotiva global. Há consultorias como a AlixPartners que preveem que a indústria automotiva no mundo vai perder US$ 60,6 bilhões em receita pela falta de chips. A IHS Markit, outra empresa de consultoria, diz que a falta de semicondutores de aplicação automotiva pode impactar a produção de 1 milhão de veículos leves no mundo só no primeiro trimestre de 2021.

De fato, as montadoras de carros não podem produzir sem os componentes eletrônicos, que desenvolvem várias funções num carro contemporâneo. Os semicondutores estão presentes, por exemplo, nas unidades de controle do motor (que acionam o motor de combustão interna), grupos de instrumentos (painel digital incluindo velocímetro e medidor de combustível), acelerômetros MEMS (que medem a aceleração do carro), em sistemas de infoentretenimento, direção hidráulica e freios. Calcula-se, que automóveis novos tenham mais de uma centena de semicondutores embarcados.

Com a escassez de semicondutores, montadoras anunciam a suspensão temporária de produção em várias partes do mundo. Montadoras instaladas no Brasil também encontram dificuldades. Segundo matérias publicadas na imprensa brasileira, a General Motors do Brasil vai paralisar temporariamente a fábrica de Gravataí, no Rio Grande do Sul, onde produz o Novo Onix hatch e o sedã Onix Plus. Matéria publicada no “Automotive Business”, diz que a GM deu férias coletivas até abril para os 2.000 funcionários da fábrica gaúcha, por falta de componentes, especialmente eletrônicos. A normalização das atividades produtivas pode demorar 5 meses ou mais. Reportagem publicada no portal do Estado de São Paulo, no último dia 1° de março, diz que a GM não confirma a paralisação, embora reconheça as dificuldades pela falta de componentes.

Em meados de fevereiro o “Automotive Business” publicou matéria que dizia o problema da falta de chips chegou às fábricas no Brasil. De acordo com a matéria, na época já havia relatos de pequenas interrupções e dificuldades de fornecedores e montadoras em manter as linhas abastecidas, mas o agravamento desse quadro não está descartado.

A Honda anunciou no dia 23 de fevereiro que fará uma suspensão temporária na linha de produção de Sumaré, (SP) de 1º a 10 de março por causa da interrupção da entrega de semicondutores. Essa não seria a primeira vez que isso acontece em 2021. De acordo com matéria publicada na imprensa, unidades do modelo Civic deixaram de ser produzidas de 5 a 12 de fevereiro pelo mesmo motivo.

 

RUPTURA – Desde o final de 2020, a indústria automotiva global já estava sendo afetada com a ruptura da cadeia de suprimentos de semicondutores. De acordo com a IHS Markit, a pressão cresceu à medida que a indústria se recuperava das restrições implementadas devido à pandemia da Covid-19 no primeiro semestre de 2020. O ciclo de recuperação se chocou com a crescente demanda do setor de eletrônicos de consumo, que também se recuperava de forma robusta no final do ano, acumulando estoques para a temporada de férias.

A indústria automotiva também experimenta uma mudança crítica que traz grandes implicações na cadeia de suprimentos. À medida que os fabricantes de veículos priorizam os veículos elétricos, os carros se tornam dispositivos eletrônicos. Isso significa que a indústria automotiva enfrenta a demanda competitiva, ainda que não direta, com a indústria de alta tecnologia, até porque as indústrias automobilísticas usam chips baseados em tecnologias de produção mais antigas, não precisando de chips que estão na vanguarda tecnológica. Mas é preciso lembrar que outras indústrias, incluindo a indústria eletrônica e aquelas que adicionam a conectividade com a internet em seus produtos nem sempre precisam usar chips da mais recente geração tecnológica.

A escassez de chips também evidencia a mudança estrutural na indústria de semicondutores. Várias companhias de destaque no segmento de produção de semicondutores são “fabless” – apenas fazem o projeto dos chips e da tecnologia embarcada neles. A produção é feita é feita por outras companhias contratadas, que são conhecidas como “foundries”.

As “foundries” são administradas por empresas como a TSMC de Taiwan ou a Samsung da Coréia do Sul. Ao que parece, elas já estavam fabricando chips o mais rápido que podiam, mas se uma empresa cortou pedidos nos primeiros dias da pandemia, ela teve de voltar ao final da fila de entrada pedidos. Sabe-se que no ano passado, fabricantes de automóveis cortaram os pedidos de chips, antecipando a queda nas vendas.

A indústria automotiva possivelmente enfrenta outro problema. Para as “foundries”, ela pode ter prioridade mais baixa que as indústrias eletrônicas. Em 2020, de acordo com dados publicados na imprensa, somente 3% das vendas da TSMC foram feitas para a indústria automotiva contra 48% para smartphones, por exemplo. As empresas de tecnologia são de alto volume, quase nunca cortam pedidos e costumam ter contratos de longo prazo com as “foundries”.

Outro aspecto a ser considerado é que os fabricantes de automóveis usam chips de grau automotivo, que são rigorosamente qualificados para atender os padrões da indústria e garantir a confiabilidade e durabilidade.

 

LOGÍSTICA – Além da falta de semicondutores em si, há também restrições no sistema de transporte global. De acordo com a Clear Metal, que monitora mais de 90% do frete marítimo, quase 7% do frete marítimo não está saindo dos portos da China neste trimestre. A escassez de contêineres fez com que as empresas tivessem de pagar prêmios pelo frete e aumentaram a demanda por frete aéreo.

Porém, o sistema de frete aéreo tem experimentado uma demanda maior devido aos embarques globais da vacina Covid-19, ainda que sua capacidade tenha sido reduzida devido à queda relacionada à pandemia nas viagens de passageiros, o que significa que há menos aviões de passageiros disponíveis para transportar cargas. A capacidade global de carga aérea no primeiro trimestre desse ano é 25% menor que no ano passado. O encalhe da frota de Boeing 777 com motores Pratt & Whitney após a falha de um motor em um avião sobre o Colorado exacerbou ainda mais as restrições de capacidade, diz artigo de Bindiya Vakil, CEO e fundador da Resilinc, e Tom Linton, assessor sênior da McKinsey & Company, publicado no site da Clear Metal. Ainda de acordo com o mesmo artigo, o prazo de entrega para muitos semicondutores é de um ano agora. (Franco Tanio)

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