Maior parte dos empreendedores do Brasil tem entre 35 e 54 anos
A maior parte dos empreendedores do Brasil tem entre 35 e 44 anos (35,3%), seguida da faixa entre 45 e 54 anos (25,9%). A faixa etária entre 18 e 24 anos representa menos de 4% dos empreendedores. Os dados são do relatório Founders Overview 2024, produzido pela investidora early stage ACE Ventures, em conjunto com o Sebrae Startups.
O perfil dos founders de startups no Brasil é cada vez mais composto por pessoas bem qualificadas e experientes, sejam executivos do mercado corporativo ou empreendedores de segunda viagem. A maioria dos fundadores, 44,5%, resolveu apostar na jornada empreendedora após ter trabalhado no mercado corporativo, contra 17,5% de pessoas que já haviam empreendido em outro setor; 12,3% que havia atuado como profissional autônomo; 8,4% de ex-funcionários de startups; 6,3% que vieram do funcionalismo público e apenas 4,2% que não tiveram experiência profissional prévia.
A pesquisa entrevistou cerca de 900 empreendedores com faturamento anual partindo de R$360 mil até receitas acima dos R$300 milhões.
“Se, antigamente, a visão corrente era de que os empreendedores eram jovens recém-formados, hoje vemos profissionais sêniores que vivenciam o mercado e decidem atacar uma oportunidade. Por muitas vezes, as startups criadas estão conectadas com alguma dor que esses founders viveram durante sua passagem por outras corporações. Além disso, nesse contexto, ainda é possível aproveitar os relacionamentos formados no mercado corporativo”, afirma Pedro Carneiro, sócio e diretor de Investimentos da ACE Ventures.
Analisando os perfis, é possível perceber um leve aumento no número de empreendedoras mulheres, mas o cenário ainda está longe do ideal. Se a Founders Overview de 2023 apontava para 23,6% de mulheres como fundadoras de startups, o número em 2024 subiu para mais de 28%. Por outro lado, a grande maioria dos fundadores se declara como homens nos dois levantamentos – a cada 10 fundadores respondentes, 7 se declaram homens (71,4%).
Observando os motivos mais assinalados como motivação para empreender pelos respondentes, temos: o propósito de mudar o mundo de alguma forma (77,6%); a ambição por maior retorno financeiro (35,3%), a oportunidade de liderar (17,9%) e o desejo por maior flexibilidade no trabalho (15,7%).
REGIÕES – Assim como em 2023, a região Sudeste segue como principal foco de startups, segundo o relatório. No entanto, no levantamento mais recente a região representa 55% das startups nacionais contra 66,7% dos respondentes no ano passado.
Em contrapartida, as regiões Sul e Nordeste demonstram crescimento. No caso do Sul, de 16,4% para 22,5% – já a região Nordeste cresceu de 10,8% para 12,5% entre as duas edições da pesquisa. Já as regiões Centro-Oeste e Norte ficam com 5,12% e 4,15%, respectivamente.
É possível notar que as startups em diferentes estados do Brasil tendem a se concentrar em setores específicos, refletindo as características econômicas e demandas regionais. A maioria das startups do Espírito Santo, por exemplo, é GreenTechs. No Rio Grande do Sul há uma abundância de EdTechs, enquanto Paraná e Bahia compartilham um número relevante de ConstruTechs/PropTechs.
Pegando como recorte a cidade que teve mais respostas de fundadores, é possível observar que São Paulo se mantém próxima da média nacional nas principais características de fundadores, como background corporativo, acesso a incentivos e aceleração, além de métricas relativas ao crescimento e tamanho das startups. Por outro lado, o estado registra uma média menor de mulheres empreendedoras, registrando 23% contra 30% no conjunto dos outros estados do país.
ÁREA DE ATUAÇÃO – As startups ouvidas pela ACE Ventures na Founders Overview de 2024 se distribuem de forma heterogênea. Os 10 setores que contam com mais startups atuando são Edtech (8,75%), Fintech (6,85%), Retailtech (5,95%), Construtech/Proptech (4,6%), Greentech (4,49%), HRtech (3,93%), Agtech (3,82%), Martech/Adtech (3,7%), Foodtech (3,48%) e Biotech (3,25%).
Chama atenção o crescimento das startups focadas em educação – um movimento que já era detectado na pesquisa do ano passado, quando as Edtechs representavam 7% das startups pesquisadas, e só tende a crescer com a necessidade de empresas e profissionais de desenvolverem habilidades novas para navegar no mundo fortemente influenciado por novas tecnologias.
As altas posições de FinTechs, RetailTechs e ConstruTechs, por sua vez, refletem a cristalização de demandas básicas do cotidiano atual: vida financeira, consumo online e a demanda por moradia. Por outro lado, uma novidade entre as startups mais observadas estão as empresas focadas em tecnologias e soluções verdes – outro reflexo das oportunidades (e preocupações) ressaltadas pela emergência climática global.
MERCADO – Em convergência com a visão de empreendedores mais maduros, que criam negócios com dores do segmento corporativo em foco, as maioria das startups entrevistada tem o modelo SaaS como principal formato de vendas, com cerca de 40% das companhias (considerado também SaaS + Hardware). A seguir, a venda direta de produtos corresponde a 17% e o formato de marketplace responde por 10% das startups.
O foco no B2B também fica evidente ao analisar os dados das startups perfiladas na pesquisa. Mais de 54% das companhias têm outras empresas como seu público-alvo. Já o formato de B2C corresponde a cerca de 19% das startups.
CANAIS DE VENDA – Quando perguntados como vendem seus produtos, os fundadores entrevistados ressaltaram os seguintes canais: Parcerias (50%), WhatsApp (39,7%), Inside Sales (33%) e Eventos (29,2%). Chama a atenção o quanto as parcerias e eventos estão ganhando mais importância para negociações no ecossistema brasileiro. As parcerias foram citadas por cerca de metade dos entrevistados como canal relevante de vendas.
Por outro lado, o relatório permite notar que as plataformas Google Ads (23%) e Meta Ads (22%) mantiveram índices semelhantes aos da pesquisa do ano passado em que Google Ads representava (22%) e Meta Ads (18%). No entanto, esses canais eram listados entre os cinco preferidos de vendas na pesquisa de 2023, o que não acontece na edição atual.
“Quando comparamos os reports, percebemos que houve uma substituição na terceirização de canais de vendas, de Google e Meta via Ads para uso de parceiros. Isso tudo indica que o empreendedor brasileiro ainda sofre para construir uma estrutura proprietária de vendas. Quem dominar métodos de venda tem muita vantagem no nosso mercado”, diz Carneiro.
VENTURE CAPITAL – A vocação bootstrap das startups brasileiras – fato apontado na Founders Overview 23 – se confirmou na edição de 2024, com praticamente 7 em cada 10 dos fundadores indicando que não tiveram investimento externo.
Para quase metade (49,5%) dos entrevistados, não faz diferença se o capital que será injetado é de um investimento anjo, venture capital ou corporate venture capital (CVC). Para as startups entrevistadas, o principal benefício do investimento está no networking e nas mentorias (61%) trazidas pelos investidores. Esse diferencial está acima do quesito financeiro (36%). Os fundadores cujas startups receberam capital estão, principalmente, na faixa de investimentos entre R$ 300 mil e R$ 600 mil (17%).
Outro dado relevante nesse aspecto é que 36,7% das startups respondentes notaram um crescimento no interesse de investidores em empresas que usam Inteligência Artificial. Esse interesse tem um fundamento: startups que implementaram IA em suas operações reportam um crescimento e ganho de eficiência operacional em 37%. Atualmente, as empresas que usam ferramentas de IA apontam que seu foco principal no uso dessas ferramentas está na análise de dados (28%) e automação de processos (24%). Há ainda startups que relatam uso de ferramentas para otimização de marketing (18%).
Além disso, a Founder Overview aponta que 7 em cada 10 entrevistados têm o objetivo de realizar um M&A no futuro. Para 37% dos empreendedores, há um plano de venda para os próximos 5 anos, enquanto o prazo é de uma década para 21% dos founders. “O que pode ser um indicativo da visão de futuro desse perfil de fundador é que 41% das startups que mais crescem, em uma taxa de mais de 70% nos últimos 6 meses, pertencem a founders que planejam um exit nos próximos 5 anos.”, finaliza Pedro Carneiro, diretor de Investimentos da ACE Ventures.