Artigos e Cases

O que esperar da retomada?

 

 

João Carlos Marchesan*

 

A atividade econômica está em franca recuperação, embora com vigor desigual entre os diversos setores. O varejo restrito tem o melhor comportamento superando, inclusive, seu desempenho anterior à crise. E a indústria, mesmo com os duráveis ainda sentindo os efeitos da pandemia, praticamente voltou a seu nível normal de faturamento, enfrentando, inclusive, alguns problemas de desabastecimento.

O setor que ainda está longe da normalidade é o de serviços que, com exclusão do comércio, continua amargando perdas consideráveis, quando comparado com o nível de atividade do início do ano. Serviços que dependem da presença física das pessoas como, por exemplo, bares e restaurantes, viagens aéreas, hospedagem e turismo continuam com suas atividades pouco acima de 50%, quando comparadas com o período anterior.

Mas, o fato das atividades terem voltado com força, antes do previsto, somado à recuperação do preço dos ativos, está levando economistas a desenhar um cenário relativamente otimista.  De fato, a bolsa voltou aos cem mil pontos, ou quase, graças aos novos investidores, que anularam o efeito da saída de bilhões de dólares dos estrangeiros e o mercado imobiliário, alavancado pelos juros baixos e pela saída de aplicadores da renda fixa, está aquecido.

Temos que ter em mente que o Brasil, antes da pandemia, estava tendo um desempenho muito pouco animador, com uma queda de 2,5%, no primeiro trimestre deste ano, ante o último trimestre do ano anterior, depois de três anos de crescimento medíocre do PIB, ao redor de 1% a.a.  Assim, mesmo no caso da recuperação em V virar realidade, iríamos voltar a um nível de atividade econômica que está longe de ser entusiasmante.

Mesmo esta volta a uma situação “normal” é, entretanto, um cenário duvidoso se nos detivermos, um pouco mais, na análise dos diversos componentes desta retomada. O consenso geral é que ela foi puxada por um aumento do consumo devido a dois fatores principais, ou seja, à retomada dos gastos da classe média, graças à redução do isolamento social e, principalmente, devido ao crescimento do consumo decorrente do auxilio emergencial.

Tanto o consumo da classe média, fortemente represado durante a pandemia, pelo isolamento e pela insegurança sobre o futuro, quanto o consumo das classes mais pobres, alavancado pelos 600 reais do auxílio emergencial, são fenômenos  transitórios, Ambos tendem a se esgotar à medida que o consumo represado volte ao normal, depois da bolha destes dois meses, e que o poder aquisitivo dos mais pobres, cair à metade a partir de setembro.

Com mais da metade da população, em idade ativa, desocupada, com o desemprego extremamente alto, salários reais em queda e portanto redução da massa salarial, empresas e pessoas físicas endividadas, taxa de investimentos inferior a 15% do PIB e fim do auxilio emergencial, dentro de três meses, fica difícil imaginar que a recuperação dos últimos dois meses se transforme numa retomada com crescimento sustentado.

A estratégia do governo, até o momento, se resume à ressuscitar a agenda pré-crise, limitada à abertura econômica, à redução do tamanho do estado e às eternas reformas, ainda que mal explicitadas,  sem ordem de prioridade definida e, às vezes, conflitantes entre si. Esta agenda não entregou o prometido, ao longo dos últimos quatro anos, e não há nenhuma razão nova para acreditar que passe a funcionar na pós-pandemia.

As reformas, ainda que necessárias, irão fazer efeito a médio e longo prazo, e são de difícil tramitação no Legislativo por mexerem nos interesses de setores e corporações. Para ter alguma chance de sucesso precisam de projetos claros e politicamente bem articulados.

Fica cada vez mais evidente que a decisão de atuar somente do lado da oferta, deixando a solução dos demais problemas a cargo do mercado não é suficiente para fazer o país voltar a crescer. Sem estímulos para a demanda, e sem uma clara articulação, por parte do estado, de políticas de desenvolvimento, com os instrumentos necessários, iremos nos limitar ao crescimento medíocre dos últimos anos.

Precisamos pragmaticamente, retomar, ainda que devagar e na medida do possível, os investimentos públicos em infraestrutura, para gerar empregos, renda e demanda para o setor produtivo e, inclusive, para estimular os investimentos privados. Se para tanto for preciso melhorar a lei do teto para não engessar o país e para excluir, dela, os investimentos públicos, isto deverá ter a mesma prioridade do corte das despesas.

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*João Carlos Marchesan empresário e presidente do Conselho de Administração da Abimaq.

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