Eletrônica e Informática

Pesquisadores da UFMG desenvolvem equipamento para análise de impressões digitais que custa dez vezes menos

Quase ninguém fora da Polícia sabe disto, mas para revelar e analisar uma impressão digital é preciso contar com um equipamento que custa uma pequena fortuna. Principalmente no Brasil. De fato, os equipamentos disponíveis hoje para as polícias no país são todos importados, e custam entre US$ 100 mil e US$ 150 mil.

Além de caros, estes equipamentos, que utilizam a luz ultravioleta e pós químicos durante a operação, são um tanto perigosos para quem os manipulam. O uso contínuo da luz ultravileta acaba prejudicando, em longo prazo, a saúde do policial papiloscopista – é assim que se chama o especialista em impressões digitais – e os pós, que ajudam na fixação e análise da digital sob a luz, também são tóxicos.

Mas os brasileiros parecem ter descoberto uma opção barata e segura para estas máquinas sofisticadas, mas que não deixam de ser bastante tradicionais.

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) desenvolveram um equipamento para revelação e análise de impressões digitais que, além de auxiliar o trabalho da perícia policial, custa dez vezes menos que o modelo importado e, ainda, emprega materiais que não são tóxicos ao manuseio dos papiloscopistas.

A pesquisa é fruto de uma parceria entre a Polícia Federal, a UFMG e duas startups, com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), e teve realmente como objetivo melhorar e baratear a tecnologia de revelação da impressão digital. O trabalho levou dois anos para ser concluído.

De acordo com Oscar de Mesquita, professor do Departamento de Física do Instituto de Ciências Exatas da UFMG, os pesquisadores trabalharam em duas frentes para desenvolver o equipamento: buscaram uma nova fonte de luminescência (emissão de luz) e um novo material para substituir os pós utilizados para a obtenção dos contrastes das impressões digitais.

Mas o ponto de partida foi a biologia humana. Para chegar à nova tecnologia, o grupo tratou primeiro de entender como e porque o corpo humano deixa impressões digitais. Segundo Mesquita, a impressão digital é, basicamente, deixada pelas glândulas que segregam gorduras das mãos e, onde ela toca, fica uma quantidade enorme de pequenas esferas de gordura – que constituem a digital propriamente dita.
“A partir daí, passamos a estudar em detalhes o fenômeno óptico do espalhamento da luz por essas gorduras, chegando ao desenvolvimento de uma fonte de luz LED com a frequência adequada para esse tipo de análise”, explica Mesquita.

Já o composto para substituir os pós tóxicos, empregados atualmente para ajudar no trabalho de fixação e análise das digitais, veio de uma fonte inesperada: o resveratrol, um antioxidante super potente encontrado, principalmente, na casca da uva e que protege o fruto contra fungos, e que é usado nas mais diferentes aplicações. O resveratrol oferece a vantagem de se ligar de uma maneira muito forte à gordura da impressão digital e permanecer mais tempo ligado do que outros materiais.

Com o protótipo pronto, o objetivo dos pesquisadores é, agora, produzir o equipamento em escala, mas para isto será preciso despertar um interesse maior das Polícias Federais e Civis, refletido, por exemplo, em um compromisso de compra que estimule a parceria de algum investidor privado. Enquanto isso não acontece, a pesquisa está sendo aprofundada em São Paulo, na Universidade Mackenzie, com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

METODOLOGIA ANTIGA – A utilização de impressões digitais para identificar pessoas existe desde a Antiguidade, tendo sido usada para autenticar documentos e selar acordos civis e comerciais em lugares como Mesopotâmia, Índia, Japão e China.

O primeiro sistema científico de identificação a ser utilizado foi o chamado sistema antropométrico, lançado em Paris, França, por Alfonse Bertillon em 1882. Em 1888, o inglês Francis Galton estabeleceria as bases científicas da impressão digital. A papiloscopia (ou datiloscopia) ganhou impulso com a adoção oficial desse sistema, em 1891, pela Scotland Yard, a polícia metropolitana da cidade de Londres, Reino Unido.

A primeira utilização de uma impressão digital para prender e condenar um criminoso ocorreu na França, em 1902. O introdutor da tecnologia no Brasil foi Félix Pacheco, o idealizador do Gabinete de Identificação e Estatística da Polícia, sob o governo do então presidente da República, Rodrigues Alves, que em 1903 determinou o uso da papiloscopia como método oficial de identificação. (texto: Alberto Mawakdiye/foto: divulgação)

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