Setor de máquinas-ferramenta de Taiwan se engaja no bem sucedido combate ao Covid-19 no país
Taiwan é um dos poucos países que estão conseguindo evitar a disseminação do coronavírus, sem a necessidade partir para ações mais drásticas. Dados do CECC, o centro de comando de epidemia do país, indica que no dia 30 de março havia 322 casos em Taiwan, dos quais 276 eram importados e 46 confirmados de contaminação local. Dos casos confirmados, houve 5 mortes e 39 pacientes foram liberados do isolamento, enquanto os restantes permanecem estáveis nos hospitais em isolamento.
É bom lembrar que o país insular, com cerca de 24 milhões de habitantes, está a cerca de 130 quilômetros da China. Em que pesem a rusgas com o governo da China, as empresas de Taiwan mantêm fortes investimentos no país vizinho e muitos taiwaneses trabalham ou visitam a China. Só no dia 30 de março, um segundo voo de resgate retornou de Wuhan, onde apareceram os primeiros de Covid-19, com 214 cidadãos, e todos foram transportados para um centro de quarentena. Nenhum deles foi hospitalizado.
A experiência de Taiwan no combate ao coronavírus poderia ser mais compartilhada e, diga-se, o governo local deseja fazê-lo. Só que há um problema. Taiwan não faz parte da Organização Mundial da Saúde (OMS), por conta da pressão do governo de Pequim. Entres as ações rapidamente tomadas por Taipé, estavam a proibição da entrada de visitantes da China, Hong Kong e Macau logo após o aumento do número de casos de Covid-19 na China continental. O governo também proibiu a exportação de máscaras de proteção já em janeiro, garantindo um estoque em Taiwan. Em fevereiro, implementou um sistema de racionamento de duas máscaras por semana por pessoa. Governo e setor privado trabalharam juntos para criar linhas de produção de máscaras para atender à demanda.
ESFORÇO COLETIVO – Para se ter ideia do engajamento das empresas no combate ao Covid-19, uma equipe foi formada pelos fabricantes de máquinas-ferramenta de Taiwan para produção de máscaras cirúrgicas para combater o surto de Covid-19. No país, 90% das máscaras são importadas. Com o aumento da demanda global, Taiwan não teve outra opção a não ser aumentar a produção local de máscaras. No final de janeiro, governo local tinha aprovado uma medida para construir 60 linhas de produção para fabricar 6 milhões de máscaras cirúrgicas por dia, aumentando a produção do país para 10 milhões de máscaras por dia.
Porém, alcançar o súbito aumento da produção de máscaras não tem sido fácil, pois a maioria dos fabricantes se mudou para outras partes do mundo há mais de 20 anos em busca de melhor lucro. Atualmente a China é um dos principais produtores mundiais de máscaras cirúrgicas.
E o aumento da produção de máscaras também esbarra no fato de os fabricantes de equipamentos (para produzir máscaras) de Taiwan serem muito pequenos. Calculava-se que levaria de quatro a seis meses para construir as 60 linhas de produção. Era um desafio e tanto para os fabricantes cumprirem a meta do governo.
O tempo estava contra o favor dos fabricantes, que precisavam trabalhar mais rápido que o vírus. Em 6 de fevereiro, a Associação de Fabricantes de Máquinas-Ferramenta e Acessórios (TMBA) de Taiwan fez um apelo para os associados serem voluntários e ajudar o país. Os primeiros integrantes da “equipe nacional” foram reunidos em apenas cinco dias, depois outras empresas passaram a aderir ao grupo para apoiar os fabricantes de equipamentos de máscara de Taiwan. No final, 140 pessoas oriundas de 29 empresas diferentes do setor de máquinas-ferramenta e 3 institutos industriais formaram a equipe nacional, incluindo gerentes, diretores de fábrica e técnicos seniores, com uma média de 10 anos de experiência no setor. E as 60 linhas de produção nasceram em apenas 25 dias.
Os fabricantes de máquinas-ferramentas contam com 30 – 40 anos de experiência em produção, essencial para ajudar os fabricantes de equipamentos para máscaras a acelerar o tempo de fabricação.
Primeiro, eles classificam as peças da máquina e definem o procedimento padrão da linha de produção do equipamento de máscara para montar o fluxo de trabalho. Foram desenvolvidas também linhas de produção modulares e designaram diferentes empresas de máquinas-ferramenta para auxiliar cada célula operacional. Todos podem, portanto, se concentrar em suas peças e dessa forma otimizar a eficiência do trabalho.
Tais esforços reduziram bastante o tempo de produção. As 60 linhas de produção, que normalmente levariam de quatro a seis meses para serem concluídas, foram instaladas em 25 dias – antes do prazo de um mês estabelecido pelo governo. Com isso, o número de máscaras produzidas em Taiwan poderá atingir pelo menos 10 milhões por dia.
O trabalho de equipe, reunindo empresas privadas, associações setoriais e o governo, torna possível uma missão antes considerada impossível. O resultado fica ainda mais valioso pelo fato de que essas empresas, que passaram décadas competindo entre si, estão colaborando para alcançar um objetivo que pode não ser lucrativo.
Por exemplo, Winston Tai, presidente da Taiwan Takisawa, também o vice-diretor da equipe, designou mais de 10 especialistas da empresa para coordenar o trabalho e ajudar outras companhias integrantes do grupo, acionou a cadeia de fornecedores de sua própria empresa para ajudar na fabricação de peças. Ele revelou que em 2003 foi diagnosticado como suspeito de estar infectado com síndrome respiratória aguda grave (Sars) e ficou isolado por nove dias. “O fato de ter passado por muito estresse e pânico naquela época, fez eu poder realmente entender a dimensão da atual crise. Por isso gostaria de usar minha indústria, habilidades e conhecimentos para ajudar o governo.”
“O pânico é pior do que o próprio vírus! No começo, queríamos nos juntar à equipe de máscaras para estabilizar o pânico público. Com união e esforço, conseguimos, e estou muito satisfeito por nossa equipe ter sido bem treinada para que eles possam contribuir com nossa parte durante essa crise. Eles me disseram que se sentiam exaustos quando gastavam 100% de sua energia trabalhando na Seyi. Entretanto, trabalhar na equipe de máscaras exigia 200% de sua energia e, em vez de se sentir cansados, eles estão felizes e honrados”, revela Claire Kuo, presidente e CEO da Seyi Machinery.
O valor investido na equipe nacional, como salários, horas extras, refeições, transporte, acomodação e ferramentas, é estimado em US$ 600.000,00, e pago pelo TMBA ou pelos próprios fabricantes de máquinas-ferramenta participantes.
“Para ser franco, caso não existisse uma cadeia de suprimentos completa de máquinas de precisão em Taiwan, aliada à vasta experiência dos fabricantes de máquinas em soluções flexíveis e personalizadas, não seria possível que Taiwan implementasse as linhas de produção de máscaras num prazo tão curto”, diz Tim Chang, presidente geral da Kao Ming.
A conquista não é um milagre, mas o resultado de cooperação e de trabalho duro. A presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, elogiou a equipe nacional por refletir o nobre espírito de cooperativismo: “Quando confrontados com desafios, o povo de Taiwan deixa de lado a concorrência e trabalha em conjunto”.
AMPLIAÇÃO DAS LINHAS DE PRODUÇÃO – Devido ao aumento de infecções em todo o mundo e em preparação para uma possível contaminação comunitária em Taiwan, o governo local planejou aumentar a construção de outras 32 linhas de produção de máscaras. A preparação começou em 6 de março.
Em 24 de março, 32 linhas de produção de máscaras foram criadas e testadas antes do prazo previsto. Com 92 linhas de produção, estima-se que a produção de máscaras poderá chegar até 13 milhões de máscaras por dia no início de abril.
“Os fabricantes de máquinas-ferramenta do Japão e da Europa me perguntaram como é possível fazer o que a equipe de Taiwan fez”, afirma com orgulho Wen-Hsien Hsu, presidente da TMBA.
Taiwan é o quarto maior exportador mundial de máquinas-ferramenta, os fabricantes não apenas produzem máquinas de alta precisão, mas também soluções de manufaturas inteligentes e customizadas. Como visto, são muito ágeis em responder as mais diversas demandas.