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Setor de transportes deverá ter em 2020 o pior ano da história devido à pandemia

 

 

 

Poucos segmentos da economia estão sofrendo tanto com a pandemia do novo coronavírus como o setor de transportes. De acordo com um estudo realizado pela TCP Partners, empresa de gestão e investimentos, o Produto Interno Bruto (PIB) do setor deve sofrer este ano uma retração de 7%, devido à queda geral da demanda provocada pelos programas de isolamento social estabelecidos no combate à covid-19.

 

Mesmo implantados de forma intermitente e estarem muito longe do rigor dos programas de isolamento desenvolvidos, por exemplo, nos países da Ásia Oriental, os programas brasileiros, a cargo dos governos estaduais e municipais, incluíram obrigatoriamente a suspensão temporária das atividades de milhares de empresas, de praticamente todas as áreas produtivas.

 

Resultado: os transportes encerrarão o ano com o pior desempenho de sua história.

 

“O mais grave é que o setor de transporte e logística sofrerá os impactos da pandemia por muito tempo. Por ser transversal, é necessário que outros setores da economia se recuperem antes, para que as empresas do segmento se restabeleçam”.

(Ricardo Jacomassi, sócio e economista-chefe da TCP Partners)

 

LADEIRA ABAIXOO estudo da PCP Partners englobou empresas de transporte de cargas, logística e também de transporte de passageiros. Usou como base os dados relativos ao segmento divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontaram uma queda de 8% na atividade até maio.

 

Tanto as operações de transporte de cargas como a de passageiros – incluindo as operações aéreas – começaram a despencar a partir de março, quando ficou claro que a crise sanitária já avançava pelo país.

 

Os efeitos sobre o transporte de cargas foram fulminantes.  Levantamento da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística)mostra que a demanda por cargas despencou 45% em abril, cinco semanas após o início das medidas de isolamento social, e continuou acima de 40% até maio.

 

À medida que a economia foi se reabrindo, a queda, naturalmente, também se reduziu, mas ainda permanecia em 24,8% em julho.

 

No caso das companhias aéreas, a queda foi simplesmente catastrófica. Em maio, o movimento de passageiros despencou nada menos do que 90%.

 

As perdas, principalmente nas modalidades rodoviária e ferroviária, só não foram maiores por causa do bom desempenho do agronegócio, no qual em várias culturas foram registradas safras recordes. Foi preciso, é claro, dar um jeito de transportar os produtos para as cidades ou para os portos.

 

Diga-se que a área de transportes já vivia uma aguda crise antes da pandemia – e que o coronavírus apenas a agravou.

 

De fato, o setor movimentou R$ 256,08 bilhões em 2018 – o ano da greve dos caminhoneiros -, um crescimento de meros 2,2% em relação ao ano anterior, e 6% abaixo do que movimentava antes da recessão iniciada em 2014. Em 2019, a expansão foi de apenas 0,2%.

 

CRÉDITO DIFÍCILA gradual reabertura da economia a partir de junho atenuou a situação até um ponto ainda bem longe do desejável. Uma pesquisa divulgada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), feita em julho com 858 empresas de cargas e de passageiros de todos os modais, revela que, após quatro meses de pandemia, as empresas de transporte ainda enfrentavam forte queda de demanda e do faturamento.

 

Elas estão se virando como podem para continuarem na ativa, mesmo com o grosso dos caminhões parados nos pátios e boa parte dos aviões estacionados nos hangares. Com dificuldade de acesso a crédito, muitas estão recorrendo a linhas com os juros mais altos do mercado, como cartão de crédito, para quitar folhas de pagamento, impostos e até mesmo para pagar o combustível diesel.

 

“Estamos trabalhando com um cenário de ano perdido. E, como não há melhora quatro meses depois do início da pandemia, teremos reflexos em 2021. É a maior crise da história do setor”.

(Bruno Batista, diretor executivo da Confederação Nacional do Transporte – CNT)

 

Recuperação judicial – É certo que o setor deverápassar por um severo encolhimento provocado pela crise, que tudo indica só irá terminar em 2021.

 

O estudo da TCP Partners também mostra que, das 157.365 empresas de transporte de carga no país, pelo menos 19,2 mil devem fechar as portas até o próximo ano. No transporte de passageiros, o quadro é igualmente sombrio: das 29.820 companhias existentes, 4,1 mil devem desaparecer no período.

 

Muitas empresas do setor estão recorrendo à recuperação judicial como forma de evitar a falência. O mecanismo suspende temporariamente compromissos com credores até que a empresa se recupere.

 

Segundo a TCP Partners, companhias aéreas, transportadoras de cargas fracionadas e de transportes terrestres de passageiros são as companhias com maior probabilidade de buscar o caminho da recuperação judicial.

 

A empresa aérea Latam Brasil já aderiu ao pedido de recuperação feito pela matriz chilena nos Estados Unidos. A Expresso Pégaso, que já foi uma das maiores empresas de ônibus do Rio de Janeiro, também entrou com pedido de recuperação judicial.

 

“É triste observar empresas relevantes da área de transportes recorrerem à recuperação judicial. Mas elas não tinham outra opção. As companhias já vinham com margem baixa de rentabilidade por causa da elevação do preço do diesel, que culminou com a paralisação dos caminhoneiros em 2018, e com o aprofundamento da recessão. A pandemia apenas aprofundou o processo de descapitalização”.

(Luiz Deoclecio, presidente da OnBehalf, consultoria de reorganização de negócios e administradora judicial)

 

Os reflexos da pandemia são vistos também no segmento dos trabalhadores autônomos. Sobram relatos de caminhoneiros que viram o número de pedidos cair mais de 50%.

 

A própria logística de carga e descarga também foi profundamente afetada pela pandemia. Tornou-se comum uma entrega demorar até quatro dias para ser feita, já que os agendamentos para carregar e descarregar estão mais espaçados, para evitar aglomerações.

 

REINVENÇÃOMuitos especialistas em transporte e logística acreditam que o setor terá de se reinventar no período pós-pandemia, caminhando, como vários setores da indústria e dos serviços, no rumo do uso maior das novas tecnologias de automatização.

 

E realmente, no Brasil, o segmento ainda usa pouca tecnologia e depende de muita manipulação humana para carregamento e descarregamento – o que foi um problema quase incontornável durante a crise sanitária. Em países como Estados Unidos e na Europa e na orla do Pacífico Oriental, a tecnologia vem ganhando cada vez mais espaço nas cadeias logísticas.

 

“Um segmento que terá de se desenvolver no país será o das ‘logtechs’, até para enfrentar a concorrência de empresas como Amazon e Uber, que já estão entrando nessa fatia de mercado”.

(Vinícius Picanço, professor de operações do Instituto de Ensino e Pesquisa – Insper)

 

Na prática, as logtechs são empresas de tecnologia aplicada ao transporte, sendo equivalentes às fintechs, na área de finanças, às femtechs, para mulheres, e às legaltechs, nos serviços legais.

 

Cuidam mais da logística do que do transporte propriamente dito. Através de ferramentas como machinelearning e big data, elas se utilizam de bases de dados para fazer com que o trânsito das cargas aconteça de forma mais rápida, eficiente e segura.

 

É um tipo de empresa que pode até prescindir de caminhões, peruas ou trens, embora evidentemente recorra a eles para realizar o serviço – geralmente, sob a forma terceirizada.

 

O produto oferecido por uma logtech é, acima de tudo, uma plataforma que usa várias tecnologias para conectar as pontas do setor logístico. Assim, a empresa pode operar com um quadro de funcionários bastante enxuto, embora tenha de ser altamente qualificado. Trata-se de um mercado propício, obviamente, para a atuação de startups.

 

“É preciso pensar na digitalização da cadeia de suprimentos brasileira. Nos armazéns, por exemplo, 80% das operações ainda são realizadas manualmente. E apenas 25% das empresas de logística e transporte contam com estratégias digitais”.

(Thorsten Roggenbuck, diretor  da DHL Supply Chain)

 

(Alberto Mawakdiye)

 

 

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