Eletrônica e Informática

Lâmpada mantida acesa desde 1901 provaria a obsolescência planejada destes artefatos

Um documentário rodado em 2010 deixou a indústria de iluminação em uma situação, no mínimo, desconfortável. Dirigido pela documentarista alemã Cosima Dannoritzer e produzido para a TV espanhola e de outros países europeus, o filme “A Conspiração da Lâmpada de Luz” – “The Light BulbConspiracy”, em inglês, e que em espanhol recebeu o nome de “Comprar, Tirar, Comprar” – acusa os fabricantes de usarem a chamada “obsolescência programada” para vender mais lâmpadas.

Ou seja, eles produziriam lâmpadas com uma vida útil propositalmente limitada, para fomentar o consumo. E isso, desde a década de 1920.

Para ancorar a acusação – que, aliás, já vinha sendo feita há muito tempo por ativistas dos direitos do consumidor – o filme compara as lâmpadas incandescentes modernas com a mítica “Lâmpada Centenária”, conhecida em inglês como “Centennial Light”, ou “Centennial Bulb”.

Produzida pelo inventor Adolphe Chaillet, esta lâmpada, um verdadeiro prodígio tecnológico da Belle Epoque, está acesa desde 1901, com pequenas interrupções técnicas. Hoje ela ajuda na iluminação da central do Corpo de Bombeiros de Livermore, Califórnia, nos Estados Unidos.

Dannoritzer afirma que a existência desta lâmpada comprova a obsolescência programadaque seria utilizada na produção do setor.

Ela vai ainda mais longe. Segundo o filme, enquanto inventores como Chaillet aspiravam criar lâmpadas de longa duração, um acordo secreto de fabricantes firmado em 1924 teria resultado na decisão de limitar a duração dos produtos. Criaram um cartel do mal, em suma.

Nem é preciso dizer que os fabricantes negam enfaticamente essa história, classificando-a como uma mera “lenda urbana”. Mas que a lâmpada centenária põe em xeque a tecnologia usada nas lâmpadas incandescentes que a sucederam, isto já não dá para negar.

 

PRESENTE – A trajetória desta lâmpada é prosaica. Os bombeiros de Livermore queriam manter iluminados dia e noite seus alojamentos, para poderem responder com prontidão quando necessário. Decidiram, assim, instalar lâmpadas de boa qualidade no quartel.

Ganharam então de um empresário uma lâmpada feita à mão em 1897 pela Shelby Eletronic, empresa que já não existe mais. O fundador da Shelby era Chaillet, que rivalizava no ramo com o famoso inventor Thomas Edison.

O resto é história. Essa lâmpada nunca mais se apagou, para todos os efeitos práticos – o maior tempo que já permaneceu desligada foi de apenas 22 minutos, quando foi mudada de lugar. É o foco de luz elétrica que há mais tempo está aceso, tendo mais de 1 milhão de horas de uso.

Faz décadas entrou para o Livro Guiness dos Recordes, e é tão famosa que tem fã-clube, a própria página na internet e um perfil no Facebook. Ela é tão paparicada que uma câmera exclusiva a filma dia e noite.

Aliás, ela sempre foi muito bem tratada. Os bombeiros que instalaram a lâmpada no começo do século passado dividiam o escritório com a polícia e, quando ambos os departamentos se mudaram, a lâmpada foi levada para a nova unidade como se fosse o Menino Jesus.

Em 1976, quando o foco de luz já havia entrado para o Guinness, os bombeiros se mudaram novamente para outra sede, e as autoridades da Califórnia planejaram uma grande operação para cuidar da famosa lâmpada durante o translado.

Cortaram o cabo por temer que, ao desenroscá-la, poderiam quebrá-la. Depois, um caminhão dos bombeiros e a polícia escoltaram a lâmpada até a nova estação, onde, ainda hoje, continua iluminando.

No entanto, essa lâmpada quase mágica, que visualmente tem um formato mais arredondado que as lâmpadas modernas, apresenta alguns diferenciais que a tornam superior às congêneres contemporâneas.

O seu filamento, por exemplo, é cerca de 8 vezes mais espesso do que o de uma lâmpada comum, e é feito de carbono, no lugar do tungstênio usado nas lâmpadas normais.

O carbono é semicondutor. Assim, quando a lâmpada esquenta, os filamentos se convertem em um condutor mais potente – em contraste com o comportamento dos atuais, que perdem potência quando esquentam.

Acredita-se que, originalmente, era uma lâmpada de 30 watts. Com o tempo, contudo, enfraqueceu. Atualmente emite uma luz tênue, de 4 watts. Esse pode ser outro segredo que ainda a faz brilhar.

Os especialistas também assinalam que, ironicamente, o fato de estar presa no mesmo soquete e jamais ter sido apagada também pode contribuir com a sua longevidade.

O desgaste em acender e apagar lâmpadas incandescentes é maior do que quando ela permanece acesa continuamente. Isso acontece porque os filamentos aquecem e esfriam, fazendo com que o material dilate e contraia, o que provoca o surgimento de microfissuras e reduz a vida útil das lâmpadas.

O abandono pelo mercado das lâmpadas incandescentes esfriou o debate. Elas acabaram substituídas quase que em toda parte pelas lâmpadas de LED, que duram de 25 mil a 50 mil horas, ou pelas fluorescentes, cuja vida útil é de 6 mil horas, em média.

Já as incandescentes apagam depois de 1 mil horas, no máximo, e ainda contribuem para o aquecimento global, pois mais esquentam do que iluminam. A lâmpada centenária também esquenta bem menos. (texto: Alberto Mawakdiye/foto: divulgação)

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