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Vagões da Série 1700 vão virar sucata?

Foi bem sucedido, mas só até certo ponto, o leilão realizado pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) no começo de novembro, cujo objetivo era passar para frente cinco históricos vagões da Série 1700, desativados em 2019.

Voltado para colecionadores ou para empresas interessadas em transformar os vagões em algum tipo de projeto temático, ou item de museu especializado, o leilão resultou em uma arrecadação bruta de R$ 268.500 para a empresa de transporte ferroviário da Grande São Paulo.

Mas – a própria CPTM admite – é provável que o único vencedor dos cinco lotes oferecidos (com um vagão em cada) transformará os carros em sucata, não os destinando para nenhuma finalidade comercial ou educativa.

Há sinais indicando para isto. Por exemplo, o mesmo participante também arrematou um pequeno lote de materiais inservíveis por R$ 1.025, o que dá a entender que não se trata, ele, de alguém interessado em preservar os carros, que foram fabricados em 1987.

Outro aspecto que reforçou essa impressão é que dificilmente haveria interesse em levar todos os vagões se o objetivo fosse outro que não o de vendê-los, por peso, para reciclagem – uma forma rápida de obter o retorno do dinheiro gasto sem ter a dor de cabeça previsível em todo projeto de utilização.

Mas, embora lamente, a CPTM não pode fazer nada a respeito. Afinal, depois de um leilão, o comprador pode fazer o que quiser com a sua compra.

E esta é quase que a única forma da companhia se livrar dos vagões desativados. Não possui um local adequado onde guardá-los, e muito menos tem dinheiro para manter equipes de conservação e manutenção.

O interesse dos museus por eles também não é lá muito grande. Os vagões têm algum valor histórico, sem dúvida. Mas é óbvio que um equipamento montado em 1987 é quase contemporâneo nosso. É “histórico” apenas quando visto de uma perspectiva muito restrita – a tecnológica, por exemplo. Não vai despertar no visitante de um museu a mesma curiosidade como despertaria um vagão, por exemplo, produzido em 1887.

Aliás, a CPTM teve até de mudar o formato do leilão para aumentar o valor da venda. A companhia costumava leiloar seus trens fora de linha juntamente com itens diversos, como trilhos gastos e dormentes, em grandes lotes. Jamais ganhou muito dinheiro com isso.

A empresa realizou, por exemplo,outro leilão em setembro, dois meses antes, quando nada menos que 71 vagões das séries 4400 e 1700 foram oferecidos numa bandeja só, como sucata. Não teve nenhum lance no leilão. O único que se mostrou interessado na compra levou: por R$ 2,9 milhões.

No leilão de novembro foi diferente. Ele foi organizado no formato de lote individual por vagão. Cada vagão foi oferecido por um lance mínimo de R$ 40.550, o preço de um veículo popular.

De certo. A disputa chegou a ser frenética em alguns dos lotes. O carro A705, por exemplo, recebeu nada menos que 46 lances, culminando com um preço final de R$ 70.500, quase R$ 30 mil a mais do que o valor inicial. O vencedor, identificado apenas pelo código L16H446, também venceu os outros quatro lotes com lances no fechamento do certame.

 

BARES – Mas que vai ser uma pena estes cinco vagões acabarem no desmanche, vai. São vagões relativamente bem conservados e estavam bonitões no dia do leilão, ainda. Prateados, feitos de aço carbono, o modelo da série 1700 rodou desde 1987 nos trilhos da Pauliceia, quando possível, a mais de 100 km/h.

Eles faziam parte do lote comprado pela extinta Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), uma das empresas que deram origem à CPTM. Os vagões prestaram serviço até o ano passado na Linha 7-Rubi, entre a capital e Jundiaí, localizada a 56 km de São Paulo e que é a única cidade atendida pela CPTM que não pertence, juridicamente, à Região Metropolitana.

Embora nem sempre realizável, a ideia da CPTM é sempre passar estes vagões para quem queira usá-los, como base de algum negócio ou para um museu ou colecionador. No entanto, sabe que talvez a única opção dada ao carro, além de virar sucata, é de ele se transformar em um bar ou restaurante.

O que é perfeitamente factível. Os vagões mostram-se incrivelmente espaçosos por dentro, quando reduzidos somente à carcaça. Os carros têm cerca de 50 m² de área, sendo maiores, portanto, que muitos apartamentos de dois dormitórios. É espaço para um salão amplo o bastante para abrigar um bar, café ou mesmo um restaurante.

Um obstáculo para isto é que não basta vencer o leilão. É preciso também tirar o vagão dos trilhos, e levá-lo embora. Um “carreto” de um único vagão em um trajeto de 100 km sai por cerca de R$ 7.000. Estão inclusos no orçamento dois batedores, as licenças necessárias para trafegar e a carreta. Cada carro pesa aproximadamente 57 toneladas.

De qualquer forma, há vários exemplos pelo país de vagões transformados em bares ou restaurantes. Comprar vagões para transformá-los em bares e restaurantes é relativamente comum no interior. No Hotel Duas Marias, em Jaguariúna, a 122 km de São Paulo, por exemplo, alguns vagões servem como parte do bar do hotel, montado em uma plataforma que remete a uma estação. Nem é preciso dizer que este bar é a grande atração do hotel.

(texto:Alberto Mawakdiye / foto: reprodução)

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